sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Cinzas - inventações de carnaval

Os que me conhecem sabem da minha mania em levar para qualquer viagem que faço meu "diário de bordo", isto é, um registro de acontecimentos, das minhas impressões sobre os lugares que visitei. É a forma que encontrei para imortalizar os momentos vividos, sejam eles agradáveis ou não (se pretendo ser uma pessoa em constante aprendizado, não posso me furtar aos conhecimentos proporcionados por aquilo que não desejo ou acho ruim).

O recente carnaval mereceria algumas palavras por sua singularidade em minha vida. E eu não as deixei de registrar. Todavia, e isto é um fato inusitado, encontrei perdido no calçadão de São Conrado uma folha de papel abandonada, ao que parece, furtada do caderno de alguém, já um tanto pisoteada, com resquícios de água do mar e areia. Analisando seu conteúdo, é óbvio perceber que se trata de uma página de diário, ou de uma daquelas notas que se faz para registrar sentimentos - eu as fazia muito no passado. Hoje, nem tanto.

Ora, tamanha coincidência não poderia ser deixada passar em branco; afinal, sou o único a escrever sobre os dias de viagem, os refúgios de que tanto necessito? A folha perdida, encontrada ao acaso por mim, deu-me uma ideia bastante curiosa: e se eu editasse o relato, ou melhor, se eu misturasse o seu conteúdo com o meu próprio, de modo a fazer deles duas peças que se encaixam? Pensando em questões de estilo de autor, não há  muitos problemas, afinal, os relatos não são tão diferentes uns dos outros. O que de fato seria uma questão a se pensar seria a da identidade do autor: analisando alguns aspectos da folha achada, é possível supor de que se trata de uma mulher escrevendo. No entanto, como serei eu o autor da façanha de unir os textos, caberia a mim torná-los uma peça única. Ou não: penso agora que o melhor a fazer é compor os relatos de modo a evidenciar as singularidades de cada um - as quais, imagino eu, irão mostrar o quanto são semelhantes. Há a inda uma outra questão: ao transformá-los em uma coisa só, não estarei deixando de lado seu conteúdo (auto)biográfico, isto é, negando sua validade como algo real? Sim, é evidente, porém tal pergunta já deveria ser colocada antes de escrevermos: qualquer relato já não é uma invenção? Deixo os rodeios e vou-me ao trabalho:

***



O Rio de Janeiro é lindo, como nunca tinha visto, e o carnaval é o avesso do que sempre imaginei. Os dias passados aqui foram coloridos, mágicos, especiais. Mas nem assim consegui esquecer aqueles meus sentimentos que sempre me acompanham. O Rio sempre foi meu local de fuga, desd'eu menino. Vir para cá me traz a ideia de descanso, de convívio em família, e até o calor tão singular que impede o sono e nos amolece o dia me parece agradável. Mas estar aqui significa principalmente um rompimento com o cotidiano, máquina diária monotonando a existência. Canso-me muito do que sou, do que me transformo enquanto Cronos devora a minha vida. Canso-me dos sentimentos sem sentido que me acometem, dos vazios infinitos que me enredam, da angústia tão antiga e íntima que só pode ser eu mesmo. Viajar me permite conhecer minha própria angústia, conversar com ela, entendê-la. Mas estar com ela é estar só. Preciso, por isso,  administrar a parcela de mim que precisa estar em contato com os companheiros e aquela que ficará em companhia da angústia. Viajar me corta em dois. Acho que estar nesta constância de ser duplo é que gera minha imobilidade, maior mal. Estar nesse encontro de forças me inutiliza. Penso na facilidade e comodidade  de deixar-se tombar para um lado. Fazer isso, porém, é me negar a identidade.

Esta cidade é, como a minha São Paulo, uma cidade de contrastes. As praias são maravilhosas, as paisagens deslumbrantes, e em muitos locais você sente a harmonia entre natureza e a obra humana. Mas o que está distante da região mais abastada (pelo menos até onde conheci) é feio, sujo, fedorento. A cidade é muitas dentro dela mesma. Parece um pouco comigo. Sou pelo menos duas dentro de mim. Estou aqui tão feliz, contente mesmo, mas há uma parcelinha, não muito pequena, que sempre chora e se sente deslocada.

Se eu pudesse ir embora e deixar toda a angústia seria quase um abandono de mim mesma. Ou seria como libertar-se de um casulo para se transformar em outro ser, o verdadeiro ser? Não penso em verdades absolutas: o Acacio que sou é um caleidoscópio das coisas que viveu: não há um verdadeiro Acacio por baixo das máscaras sociais que somos obrigados a vestir. Elas sou eu. 

O Carnaval, o Rio, os dias quentes ficam para trás do tempo e do espaço. Às vezes a memória me trará os flashes da Lapa e de seus arcos brancos, suas escadarias multicores, de São Conrado, areia calma, forte mar. De sorrisos e do sorriso ingênuo e carinhoso, em barba por fazer. De olhos tristes e do medo de ser eu eu o motivo deles. Às vezes desejarei reviver cada segundo dos dias antes passados; outras quererei esquecê-los, apagá-los. Mas é certo que esses dias já fazem parte do meu relicário de pequenas dores e felicidades.

Os momentos evanescem com o andar do ônibus em direção ao Porto Seguro. Os sentimentos, estes continuam a latejar dentro disso a que chamam alma. Se pudéssemos reter na retina os momentos que nos acham, como fazemos com algumas imagens, talvez poderíamos explicar melhor a nós mesmos o que sentimos.

Já as palavras voltam aos seus lugares. Finda a viagem, o refúgio. Mas trago angústias e anseios novos, sufocados já em seu nascer. A ideia de Cronos sempre me persegue: o tempo a devorar seus próprios filhos, que somos nós mesmos. E eu também não faço como meu Pai? Todas essas dores, angústias e anseios, não sou eu a devorá-los, guardá-los na barriga? E se um dia um deles me despojar e virar rei? Não sei. Até lá estarei como sempre estive: revestido de minha couraça de estoicismo, permitindo-me certos rompantes de alegria, raiva, tristeza. Porém o grosso de todos esses sentimentos continuará represado até a queda deste titã.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

TV DE PLASMA (NOVO MEMBRO DA FAMÍLIA)


     Sofá disposto em L. Três paredes brancas e uma azul-índigo. TV de plasma, quarenta e duas polegadas, na parede em destaque. Mesa de centro, refrigerante, pipoca, guardanapos. E a campainha.
            - E aê, primão!
            - Fala, mano!
            - Trouxe o jogo? Hoje o negócio vai ser do outro mundo!
            - ... Olha o tamanho desta TV? Meu, vai ser irado!...
            - ...Ela tem definição full HD, entrada USB, dá pra conectar no computador e jogar on-line!
            - ...Meu, que imagem perfeita!
            - A resolução é de 1024 x 768 pixels. A imagem parece real. Você precisa ver o Call of Duty como fica!
            - Oi, meu querido? Quer comer alguma coisa?
            - Não agora, tia.
            - Mãe, traz um refrigerante pra nós! Este já tá quente e acabando.
            - Claro, meu filho. Ah, depois eu quero ver a novela...
            - ... E o Resident Evil, então?! O som dos zumbis gela até a alma!
            - O cara lá do trampo tem home theater. O negócio é animal.
            - É que você não viu a ligação que eu fiz. As entradas auxiliares estão ligadas no rádio. Ouve! MEU! DÁ PRA SENTIR A PAREDE BALANÇAR!
            - AH, EU TROUXE TAMbém o jogo do Senhor dos Anéis. O gráfico dele deve ficar chapado na TV.
            - E você precisa ver os filmes! Olha isso aqui! Olha, olha, olha: os canais da net têm transmissão HD e a imagem fica perfeita!
            - A tecnologia é animal...
            - Claro que não tem 3D, mas esta não fica por baixo, não! A gente aproveitou que ia sair de linha e comprou por um preço bacana.
            - Que sorte, hein! Meu pai comprou uma de LED, mas ela é bem menor que essa.
            - Tem cachorro-quente e hambúrguer. O que você prefere, querido?
            - Eu quero os dois, tia!
            - Eu também, mãe. Ah, tem salgadinho ainda? Pega pra nós?
            - Vamos comer primeiro? Tá me dando uma fome...
            - O cachorro-quente já tá pronto. Vocês podem ir comendo enquanto eu frito o hambúguer.
            - Eu joguei ontem o Harry Potter. O jogo é besta, mas o gráfico é muito bom.
            - Ah, depois eu quero jogar o Winning Eleven contra você.
            - Pra perder de novo?
            - Que perder o quê? Você é que perdeu pra mim da última vez que eu vim aqui!
            - Que eu perdi! Você não lembra, não? Eu ganhei de você de três a um.
            - Faz logo o cachorro-quente pra salsicha não esfriar. Tem batatinha no armário.
            - Cadê a maionese?
            - Pega na geladeira, querido!
            - Mas hoje eu vou vencer você! Você vai ver!
            - Sonha, garoto!
     O som do hambúrguer na chapa. Catchup sobre a toalha branca. Maionese, bata-palha e uma panela com salsicha em molho de tomate. Copos cheios de coca-cola. E o barulho do portão.
            - O pai chegou!
            - Deixa eu preparar o lanche dele. Meninos, o hambúrguer tá pronto.
            - Você tem o Assassin’s Creed?
            - Claro! Eu comprei também o God of War. Chapado!
            - Deve ser louco na sua TV.
            - Acaba logo que eu já te mostro.
            - Oi! E aí, Rogério!
            - Beleza, tio?
            - Amor, seu lanche já tá quase pronto.
            - Ainda bem! Tô morrendo de fome!
            - Mãe, vou comer o hambúguer depois. Qual você vai querer jogar, primão?
            - Escolhe aí.
            - Deixa eu te mostrar o God of War... Agora só falta eu trocar o vídeo-game.
            - Cadê o segundo controle?
            - Em cima da rack. Olha só esta imagem! Olha a definição!
            - Cara, é-mui-to-lin-do! Chapado!
            - Péra aí! Você não queria ver o Assassin’s Creed? Calma aí... o vídeo-game já tá meio zoado... só mais um pouquinho...
            - Putz! Esqueci de trazer o Final Fantasy dez! Que merda!
            - Olha o Assassin’s Creed! Esse jogo é dos infernos!
            - Coloca o Winning Eleven aí!
            - Já quer perder?!
            - Você vai ver quem vai perder!
            - Meninos, tá na hora da minha novela!
            - Ah, mãe, dá um tempo aí!
            - Que tempo, que nada! Você passou o dia todo jogando vídeo-game!
            - Que passei o dia todo, mãe! O Rogério só chegou agora!
            - Tá, mas eu avisei que queria ver a novela...
            - E é sempre na hora que eu vou jogar!
            - Não. É você que quer jogar na hora da minha novela.
            - Porra! Eu nunca posso jogar vídeo-game!
            - Olha a boca! Você passou o dia inteiro em casa.
            - Só que eu quero jogar agora. Pode ser? Ou eu só posso jogar na hora que vocês não querem usar a TV?
            - Vocês vão passar a madrugada toda jogando. Dá pra esperar um pouquinho?
            - Ah, claro! Eu chamei o Rogério aqui pra ficar vendo novela!
            - Primão, sem problema...
            - Sem problema o quê, Rogério?! É sempre assim! Eu tenho que seguir a vontade deles, jogar vídeo-game na hora que ninguém quer usar a TV. Eu não tenho vontade, eu não posso escolher... agora não! Eu vou jogar na hora que eu quiser.
            - Ah, não vai não! Tá no horário da minha novela e sou eu quem vou assistir!
            - Isso! Pode mandar nessa porra! Eu nunca posso fazer nada, mesmo!
            - Olha a boca, moleque! Respeita a sua mãe!
            - Que respeito, porra nenhuma! Eu fui respeitado por acaso?
       - Abaixa a bola que quem manda nessa porra sou eu! Você fica o dia todo vagabundando, sem fazer nada, seu imprestável!
            - Ah, agora eu sou o imprestável! Quando era pra pesquisar a TV eu servia, não é?! Tudo bem: essa porra é de vocês, mesmo!
            - JÁ FALEI PRA VOCÊ MANEIRAR NO TOM, PORRA!
            - Ah, quer saber: não quero ver mais novela nenhuma!
            - Você vai ver sim! Já não arrumou confusão? Então faz o que você quiser com essa merda! Toma a porra do controle...
            - Me respeita, moleque! Você tá falando com sua mãe!
            - Que respeito o quê! Eu nunca sou respeitado nessa porra!
            - Calma, primão...
            - Calma o cacete! Todo dia é assim: eu tenho que seguir o horário deles! Só posso jogar depois do jornal, depois da novela, depois do jogo. Ah, vai tomar no cu!
            - QUER LEVAR UM MURRO, SEU MERDA? Cala essa boca, você não tá falando com aquela vagabundinha sua, não!
            - Vagabunda é aquela Edith e o seu filho bastardo!
            - Você acha que me atinge chamando a Edith de vagabunda, seu moleque?! Chama ela do que você quiser, seu porra!... Fica o dia inteiro na frente do computador, da TV. Vai fuder a Mariana e vê se some da minha frente. Até parece veado: o dia inteiro em casa! Vai trepar que você ganha mais!
            - Eu trepo a hora que eu quiser, entendeu!
            - Esquece essa TV. Eu vou pro meu quarto!
            - Ah, não! Sua novela já tá passando! Você não queria mostrar que manda nessa porra? Então: pode mandar! Eu não vou jogar mais porra nenhuma!
            - É sua mãe que manda nessa porra, sim! E se você não tá satisfeito, tá na hora de ir embora!
            - Eu vou mesmo! Já não agüento mais essa merda!
            - Então acorda, moleque! Você já não tem idade de viver na minha asa, não!
            - Vai à merda, com esse papo, pai! Toda vez é isso?! Me expulsa de casa então! Vai! Essa porra é um inferno, mesmo!
            - Some da minha frente, então! Quero ver se você é homem! Vai se virar sozinho! Vai trabalhar pra se sustentar! Na sua idade eu não dependia de ninguém.
            - Me sustentar você não quer, mas ficar pagando pensão pro filho daquela vagabunda, não tem problema, não é?!
            - Já disse que você não me atinge falando da Edith e do João. E vagabundo é você que não descola essa bunda do sofá e não faz nada que presta!
            - Vai cuidar da sua vida e me deixa em paz!
     Choro. TV ligada. Telecine Cult. Filme: Festa de Família, de Thomas Vinterberg. Garrafa de refrigerante virada; líquido escuro sobre o tapete branco. E a Wikipédia define o plasma como o quarto estado da matéria, diferindo-se dos estados sólidos, líquidos e gasosos. Trata-se de um gás constituído de átomos ionizados em uma distribuição quase neutra de íons positivos e negativos. O site ainda informa que a pequena diferença de carga torna o plasma eletricamente condutível, tornando-o bastante sensível a campos eletromagnéticos.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Coisa Miserável

Coisa miserável,
Suspiro de angústia
Enchendo o espaço,
Vontade de chorar,
Coisa miserável,
Miserável

Senhor, piedade de mim,
Olhos misericordiosos
Pousando nos meus,
braços divinos
cingindo meu peito,
coisa miserável
no pó sem consolo,
consolai-me.

Mas de nada vale
Gemer ou chorar,
De nada vale
Erguer mãos e olhos
Para um céu tão longe,
Para um deus tão longe
Ou, quem sabe? para um céu vazio.

É melhor sorrir
(sorrir gravemente)
e ficar calado
e ficar fechado
entre duas paredes
sem a mais leve cólera
ou humilhação.

Poesia Completa de Carlos Drummond de Andrade, p. 55 (Nova Aguilar)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Da ponte pra cá: sobre o filme "bróder", de Jeferson De

Bróder é um filme ousado em muitos aspectos. Um: conta uma história sentimental, sem medo de distoar de filmes como Cidade de Deus e os Tropas de Elite. Outro: não abusa da violência, como o fizeram o Cidade e o Tropa. Terceiro: o filme foge do maniqueísmo, do bem vs mal, mocinho vs bandido. E finalmente: não parece um filme sobre pobres feito para uma classe média que já se cansou de cultura erudita. Trata-se de um filme que não só é feito por quem é da quebrada, mas para quem pertence a ela. Os dramas individuais e os códigos de conduta do microcosmo chamado Capão Redondo (que só fazem sentido dentro daquele universo) irão tocar muito quem está "do lado de cá" da ponte. Isto não significa que quem está do lado de lá não possa compreender. Mas para estes faltará a experenciação ou identificação com o que é representado.

O filme também é ousado tecnicamente. O plano-sequência inicial, em que o personagem Macu desce comprimentando seus vizinhos, já aponta para uma tônica do filme: nada do frenesi de cortes que em filmes como Tropa de Elite e

cidade de Deus intensificam a sensação de violência. O roteiro de Bróder, simples e previsível, se sustenta em estabelecer uma atmosfera de tensão, como se fosse uma panela de pressão prestes estourar - algo muito parecido com o que Spike Lee fez em Faça a coisa Certa. As histórias dos personagens tecem-se quase que imperceptivelmente: não nos damos conta, mas ao final do filme sabemos o que cada um dos três amigos sofre, sem que fosse preciso utilizar recursos como o flashback. Acho que é neste ponto que o filme de Jeferson De triunfa: o diretor se vale de um conceito aristotélico - a já batida e já esquecida unidade de tempo - para contar sua história. O desfecho todos sabemos, mas o prazer se ver o filme se encontra na maneira singular de como é narrado aquilo que conhecemos.


domingo, 23 de outubro de 2011

CONCEIÇÃO

"Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos"
Machado de Assis


Reviro-me na cama. Meu braço cai por sobre o buraco vazio ao lado. Dentro de mim a inquietude duma alma a vagar por espaços do que foi e do que é. Há alguém em minha sala, ou em qualquer outra: em tempo de insônia os lugares multiplicam as presenças.

É estranho o desejo. Não sei, pois, se é desejo. Meu corpo mexe, afoga-se em águas próprias. Será esta a atriz por trás da personagem diária, morna? Neste momento as paredes parecem mais profundas, mas espessas. As cortinas estão cerradas, ninguém me vê fora do espetáculo. Estou sozinha; um corpo, em desgaste começado, sozinho.

Não há vozes, não há ruídos, não há passos. Mas sei que ele está lá. Sei que espera, assim como aguardo o marido tão amante de teatro. Quem na sala está tem o frescor da ingenuidade, um quê de pureza lasciva. As minhas mãos contraem-se, molhadas. Um ideia surge e percorre as veias do meu corpo. Pergunto se devo me servir ao hóspede da sala. Cada poro meu expele a ideia que surgiu. O pensamento levanta da cama altivo, decidido. Sei que vou à sala. Abro a porta e explodo em cores de Almodóvar.

São Paulo, primavera de 2008

terça-feira, 28 de junho de 2011

Em defesa da religião (ou contra o fim da moral cega)

para V. Cassio (do Canto em Silêncio)

Sem rodeios. Há dois nomes que quero citar e discutir neste texto: Jair Bolsonaro e Myrian Rios. Tais nomes dispensariam a necessidade de se apresentar o assunto polêmico a que me ponho a discutir, mas vá lá: o peso do discurso religioso na fala e na figura desses sujeitos.

Jair Bolsonaro, Myrian Rios e Cristinanismo. Penso que a relação entre estes termos é bastante evidente para quem estiver acompanhando os assuntos da mídia. O que não deveria ser. Mas, pelo fato de ambos deputados irem à grande imprensa como representantes do povo - e de deus - e valerem-se de sua opção religiosa para posicionarem-se contra ações legais que visam ao combate da homofobia, acabamos por associar suas opiniões às opiniões dos religiosos em geral. O maior problema, todavia, não é a opinião do sr. J. B e da sra. M. R. (dadas sob a luz da democracia e referendadas pelo direito à livre expressão) estarem associadas a grupos religiosos. O problema é quando os religiosos posicionam-se a favor dos deputados, como se estes fossem porta-vozes da massa cristã que prega amor ao próximo e defesa da família.

Àqueles que seguem a doutrina cristã e, mesmo assim, apóiam J. B. e M. R., falta um pouquinho de reflexão sobre a história da religião que seguem. O cristianismo era uma religião de escravos. Os hebreus fugiram do Egito. Os seguidores de Cristo eram perseguidos pelos romanos. Ora, isso já é o suficiente para qualquer cristão encolher o dedo em vez de apontá-lo acusadoramente. Um povo que sofreu com perseguição e a não aceitação de sua opção religiosa deveria ter como princípio básico a aceitação de qualquer fé ou de qualquer diferença que possa gerar uma perseguição semelhante ao qual foi submetido. Não está escrito na bíblia, mas poderia estar presente no coração de todos os seguidores desta doutrina.

Ademais, uma religião (aqui entendida como conceito e não como instituição social) baseada na ideia do amor ao próximo e cujo maior martir é um homem que morreu, dizem, para salvar a humanidade (mas que, na verdade, morreu por pregar valores que iam contra os preceitos do Império Romano), deveria opor-se a toda e qualquer forma de discriminação. Outra coisa que poderia estar na bíblia. E, se pensarmos bem, é o que a vida de Cristo suscita: judeu que foi mandado à cruz pelo seu próprio povo, andarilho que tinha atrás de si pobres, doentes, prostitutas (e disse, certa vez, sobre uma: "atirai a primeira pedra aquele que nunca pecou"), santo que nunca atribuiu a si os milagres que os outros diziam que ele fazia (preferia dizer: "vai. Tua fé te salvou.").

Mas temos os Bolsonaros e as Myrians Rios. Que falam em nome de uma religião e atacam os indivíduos que, diferente dos religiosos, não escolhem o tipo de desejo sexual ao qual estarão sujeitos. Que proclamam defender uma moral (família ideal, boa conduta, direito à propriedade, à liberdade de expressão) só existente no pensamento cristão após as revoluções burguesas (Revolução Francesa e outras). Estes Bolsonaros e Myrians Rios só mancham ainda mais a imagem da religião cristã. E o problema é que não encontrei, até este momento, cristãos dispostos a defender sua imagem, mas muitos que engrossam o coro dos deputados. Eu, ateu que sou, mas inspirado por um texto de um amigo (http://cantoemsilencio.blogspot.com/2010/10/sobre-politica-e-religiao.html), tento defender o uso da religião como instrumento a favor da equidade entre as pessoas (evito propositalmente a palavra igualdade, já tão desgastada nos discursos destes políticos não entendem a lógica do direito à diferença), ainda que as leis da probabilidade não me permita dar crédito a essa possibilidade.

Democracia. Direitos Iguais. Liberdade de Expressão. Tais palavras são erigidas como as aspirações máximas do Estado. Todo mundo fala o que quer e esconde-se atrás desses termos, alegando que tem direito à opinião. Mas, e quando essa opinião só beneficia aquele que a tem (e ao grupo do qual sua opinião é reflexo) e condena os demais? A mim fica patente uma falha moral: importar-se apenas consigo ou com os seus em detrimento dos demais. Para quem pensa somente em benefício próprio é preciso lembrar: ser livre exige responsabilidade. Exige olhar qualquer questão sem os pré-conceitos já sedimentados. Exige, sobretudo, que se reflita e saiba distinguir a origem de seus próprios pensamentos, de sua própria conduta, pois estes, ainda que pareçam frutos de sua brilhante capacidade humana, são reflexos também da sociedade em que o indivíduo está metido. Ser livre é perder a ingenuidade. O sujeito que cumpre essas exigências está apto a dar sua opinião. Se ele existir, suponho que prefirirá manter-se calado.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Solidão em São Paulo: "Estamos Juntos" ou tema bom para um filme ruim

Muito se fala sobre a solidão nos grandes centros urbanos. Parece que morar em uma metrópole significa estar solitário, viver sozinho em meio a multidões de rostos sem nome. Tal contradição junta-se a outra: ainda que com muitos conhecidos em inúmeras redes sociais, o sujeito não consegue comunicar-se de maneira efetiva com o outro, seu semelhante. É como se faltasse algo. E, para compensar a falta, multiplicam-se as possibilidades de diversão: bares, bailes, festas, shoppings, cinemas... A aglomeração de gente dilui os solitários numa massa multiforme.

Este é um dos temas do filme "Estamos juntos" (Toni Venturi, 2011). Tema deveras interessante, o que daria, no menos, um filme poético. E o filme do diretor de Cabra-cega tenta ser: o uso (excessivo) do plano-detalhe, os movimentos rápidos de câmera, a montagem opondo dois mundos paulistanos. São propostas estéticas que, no contexto do filme, acentuam a temática da solidão e da incomunicabilidade. Se tais recursos estivessem associados a uma estória menos óbvia, talvez o filme fosse melhor. Contudo, o grande problema de "Estamos Juntos" é explicitar de todas as formas - da montagem ao roteiro - o tema e a opinião do diretor. A começar pelos personagens: Carmen, personagem vivida pela atriz Leandra Leal, é uma médica solitária, que sai nas noites paulistanas com seu amigo Murilo (Cauã Reymond) e vive aventuras sexuais com Juan (Nazareno Casero), amigo daquele. Nas madrugadas, ou durante os banhos, costuma bater papos filosóficos com um homem misterioso, que mora em seu apartamento. A própria cidade é outra personagem na trama, talvez a mais importante: metrópole de profundos contrastes sociais, a engolir sonhos de uns e regurgitar de outros.

São Paulo revela-se logo na sequência de abertura: um plano geral sobrevoa a cidade e seus contrastes; ao fundo, uma trilha sonora melodramática misturando violino e música eletrônica. Aliás, a trilha é o elemento que mais incomoda: o som do violino dá ao filme a cor de um tango argentino. Daí somos apresentados à personagem de Leal, a médica que salva vidas mas que não tem ninguém que lhe salve. Ou melhor: não consegue abrir seu mundo para que as pessoas possam entrar e salvá-la. E a salvação é necessária, pois a moça está doente, não tem parentes na cidade e é incapaz de pedir ajuda. Com ela, apenas o misterioso homem a falar sobre céus invertidos e fazer-lhe massagens e picotes no cabelo. Carmen está entre os dois mundos representados no longa: o mundo fútil da burguesia cheia de si e afoita por preencher o vazio de alma, e o mundo dos pobres e oprimidos que vêem na luta por direitos básicos o motivo da existência. O tom humanista é mais do que patente: anuncia-se a cada quadro, realçado pelo desespero crescente da personagem central. E, como receita para a solidão, a incomunicabilidade e o vazio de sentido na vida, o filme sugere a ajuda ao próximo, o estabelecimento de relações fraternais.

Talvez seja este o aspceto mais decepcionante do filme, ao menos para mim: explicitar que, se há uma possibilidade de construção de sentido para a vida, é a luta ao lado do oprimido. Os dramas do pobre são maiores que os dramas individualistas dos ricos, o filme parece dizer. O problema não é passar esta mensagem; o problema é gritá-la por todo olonga. Filmes como o "Linha de Passe" (Walter Salles) ou o recente "Bróder" (Jefferson De) adotam um tom humanista sem precisar fazer alarde, como o "Estamos juntos" faz. E se a ideia era falar da solidão e da incomunicabilidade entre os homens, um anjo e uma trapezista (Asas do desejo/Himmel über Berlin, Wim Wenders, 1987), uma adolescente japonesa muda, um casal americano e imigrantes mexicanos (Babel/Babel, Alejandro González Iñarritu) ou ainda um nerd que cria uma rede de relacionamentos por que não consegue se relacionar (Rede Social/Social Network, David Fincher, 2010) cumprem melhor com o objetivo do que uma médica com esquizofrenia que salva vidas mas não tem salvação.

Explicitez. Obviedade. Poderiam ser qualidades. Neste caso banalizaram o que poderia ser uma boa estória sobre a solidão e a solidadriedade em São Paulo.


créditos das imagens (na ordem em que aparecem): 1) cartaz do filme "Estamos Juntos"; 2) cena de "Linha de Passe"; 3) cena de "Bróder"; 4) cena de "Asas do desejo"; 5) cena de "Babel"; 6) cena de "Rede Social"