Mostrando postagens com marcador Drummond. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Drummond. Mostrar todas as postagens

domingo, 6 de outubro de 2013

Consideração do poeta

(...)Tal uma lâmina
o povo, meu poema, te atravessa.
(Drummond, Consideração do poema)

Para Xs companheirXs de luta

O poeta vê o barro molhado da chuva
os barracos precários que sobrevivem
o vento assombrando a brava lona preta

Vê vozes desenhando sonhos
afrontando capitais projetos
e não sabe o que dizer

O poeta vê a palavra povo
que abandonou a poesia e os círculos e bares
da Vila Madalena e Augusta
que se tornou teoria empoeirada
Em Pinheiros e no Butantã
e sabe o que não quer dizer

Vê a criança inventando nova vanguarda
embaixo da corajosa árvore centenária e vívida
o pipa que esquiva-se e sobe adiantado
pintando de vermelho um céu de inverno
perdido na primavera

O poeta não diz
Sabe que o silêncio em tempos de luta
também é boa poesia.


domingo, 19 de maio de 2013

Apropriação Indébita ou Sobre os ombros de Drummond

Sempre que lhe faltar as palavras, diz o onisciente narrador em mim, recorra aos versos de Drummond. Em um deles estará escrito exatamente o que quer dizer.


Os Ombros Suportam o Mundo
Carlos Drummond de Andrade


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(in Sentimento do Mundo)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Coisa Miserável

Coisa miserável,
Suspiro de angústia
Enchendo o espaço,
Vontade de chorar,
Coisa miserável,
Miserável

Senhor, piedade de mim,
Olhos misericordiosos
Pousando nos meus,
braços divinos
cingindo meu peito,
coisa miserável
no pó sem consolo,
consolai-me.

Mas de nada vale
Gemer ou chorar,
De nada vale
Erguer mãos e olhos
Para um céu tão longe,
Para um deus tão longe
Ou, quem sabe? para um céu vazio.

É melhor sorrir
(sorrir gravemente)
e ficar calado
e ficar fechado
entre duas paredes
sem a mais leve cólera
ou humilhação.

Poesia Completa de Carlos Drummond de Andrade, p. 55 (Nova Aguilar)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

VERDADE

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.


Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metade
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Carlos Drummond de Andrade