sexta-feira, 30 de março de 2018
Esboços para uma personagem melancólica
domingo, 4 de outubro de 2015
sábado, 19 de setembro de 2015
textos voantes
Tomo longos goles do líquido escuro que brota do meu peito. Deixo-os escorrer da camisa branca à folha amarelada. Não sempre mas deste contato tão prosaico sai, par em par, umas asas coloridas. Borboletas, eu sei. E rio feliz porque aprendi: onde há borboletas há também nascentes.
Da memória sexagenária aos futuros planos abortados, tudo no aqui-dentro - quero costurar umas asas bem bonitas. Fazer voar as dores, deixar o amor conhecer a estratosfera. Assim: no espalho quem sabe eu me acho. E encontre quem me junte.
Dizem: a poesia é livre.
Mas o poema é ave em cativeiro.
(são os únicos - os únicos - pássaros que gostam de gaiolas).
Melancólico é o coração-árvore com desejo de asas
ave-
-nturas.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Concreto para um coração (ser de) cimento
amor taça
amortece
amor desse
amordaça
amor desce
a morder-se
amar tece
amor tecido
amor dura?
[armadura]
sábado, 27 de junho de 2015
Poema-líquido
se ando tomando as águas da Cantareira?
Melhor enxugar as dores
numa praia, Dolores, do delta do Velho Chico.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
canário belga
transmuto-lhe em palavra
para que saia de mim
e permaneça comigo.
sexta-feira, 8 de maio de 2015
decoração (poeminhas para encurtar a noite)
Amar tem sido como comprar sapatos:
_______________
¹ "Coração de porco" In: Ondjaki. E se amanhã o medo. RJ: Língua Geral, 2010
domingo, 29 de março de 2015
barros. brincando de ser manoel
amor não é,
faz. brotar setembros, adormecer marços.
lembrança sim: nuvem carregada. cai uma, duas vezes no domingo.
mágoa, palavra molhada, encharcada na primeira bátega.
ódio é sol e céu aberto. seca das nascentes.
rancor é chão rachado, sem restolho e sombra de novo aguaceiro.
amigo é sempre água de cacimba.
saudade, um sussurro soprando a segunda chuva.
quarta-feira, 18 de março de 2015
alerta-vermelho
o lado de lá gosta de associar
em metonímico processo
o verde, às florestas;
o amarelo, às riquezas;
o azul, ao céu anil;
e a faixa branca é a corrente do
progresso.
acreditam que assim nascemos nação
eis, porém, que uma dúvida surge:
e o vermelho do sangue indígena
cobrindo o chão paulista
pintado por bandeirantes?
do sangue grudado
nos filhos nascidos
de violações?
do corte das árvores, do corte das orelhas
do corte dos laços com a terra-mãe?
o sangue das costas
depois de açoitada
a pele negra -
que escorre pelo dorso, pelo tronco, pelo barro batido?
o sangue que desceu pelo litoral
vindo do norte
pra levantar essa cidade?
o sangue que ainda corre nos morros
muros, favelas, becos e bares?
quando a paulista vestiu verdeamarelo
o sinal vermelho acendeu em meu olho.
do lado de cá andamos dispersos.
se é verdade que falta uma bandeira que nos
una
não tenhamos dúvidas de qual será sua cor
nem da mão com que iremos empunhá-la.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
terça-feira, 16 de setembro de 2014
Resposta
às vezes a própria terra,
outras o adubo dela.
lótus que nasce em charco
planeta que a tudo encerra.
um livro de clarice,
o próprio riobaldo tatarana,
um blues azul,
uma dança cigana.
é também falta e silêncio.
tarde de domingo e
madrugadas sem sono
conversas com o espelho
dias de outono.
e inverno.
corpo pesado, pêlos em riste.
talvez um riso amarelo
e olhar baixo,
louco e inquieto.
mas sobretudo certeza
de que é o que prepara a terra:
semente escondida na flor
donde surgirá a primavera.
quarta-feira, 21 de maio de 2014
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Hoje
elas não precisam de mim
do trato e do carinho que ofereço
deixo
e vou ao encontro dos meus
no barracão
no busão
no vagão
lotados
de sonhos que forram a terra
cobrem o teto
seguram-se em barras
paralelas
e nadam em rio sem vida
daqueles que tornam a luta
gesto maior que um pronome
mão quente acariciando o rosto
atravessando a madrugada fria
hoje sou mais um e vou
na multidão
dos que me tornam palavra
e concedem-me este carinhoso gesto solidário
vou e converto-me em poesia de luta
que, mesmo sob a eterna falta do poeta
concretiza-se
em lona, canção, cadeia
dia-a-dia.
sábado, 9 de novembro de 2013
Montauk
palavras esquecidas (canções de ninar ao telefone)
choro entalado
Nuvens em céu claro: brancas
é o futuro que passa sem cair no chão
chuva dissipada pelos raios - brancos - do sol
Branco de roupas no varal
longínquas tardes em praça inventada
amizade aquecida pelo abraço alvo do tempo
Areia branca de neve em Montauk
sons espumosos no mar
vento acompanhando o amanhecer
set-light redondo sobre o rosto: branco
segundo-plano desfocado
ninguém vê o que se perde
Branco, fade-out demorado
prenúncio do fim ou de uma nova sequência
expectativa dentro do vaso vazio.
Enfim, branco da memória
luz dura incidindo sobre a cabeça
e o mundo todo é azul.
Carrego-as assim, as lembranças:
talhadas em geleiras eternas
brancas, alvas lacunas.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Coisa Miserável
Coisa miserável,
Suspiro de angústia
Enchendo o espaço,
Vontade de chorar,
Coisa miserável,
Miserável
Senhor, piedade de mim,
Olhos misericordiosos
Pousando nos meus,
braços divinos
cingindo meu peito,
coisa miserável
no pó sem consolo,
consolai-me.
Mas de nada vale
Gemer ou chorar,
De nada vale
Erguer mãos e olhos
Para um céu tão longe,
Para um deus tão longe
Ou, quem sabe? para um céu vazio.
É melhor sorrir
(sorrir gravemente)
e ficar calado
e ficar fechado
entre duas paredes
sem a mais leve cólera
ou humilhação.
Poesia Completa de Carlos Drummond de Andrade, p. 55 (Nova Aguilar)
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
VERDADE
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metade
diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Carlos Drummond de Andrade
