Talvez um maço só não baste. A casa é o pior lugar pra se esconder nestas horas, e a rua toda cheia de vazios deixa de ser caminho e passa a ser destino. Mesmo com o perigo do gás. Semana passada estouraram tanta bomba na Paulista que ela, uns instantes, virou nuvem. A gente nunca imaginou que andar nas nuvens seria assim. Sufoco.
Só o coração respira. Por isso não entendo como aquele mato crescendo na rachadura do viaduto resiste. Ali, no sentido Rebouças. Tem outros também. Tentei cortar uma vez - bastou um fim de semana e estava tudo igual. Não desisti: cortei outras tantas. Agora só tento evitar que ele cresça. Tem outros. Tem outros e o medo é que eles sufoquem como o gás. É perigoso porque não tem barulho. A bomba já bota a gente em sobressalto quando explode, todo mundo em disparada. O gás é depois, junto com o desejo de não ter olhos e garganta. Mas, como dizem, desejo é
Tem uns que são do tamanho de arbusto. Um famoso é o da ponte Cidade Universitária. Se atreveu a ficar bonito, ninguém mais tem coragem de cortar. Devem ter outros tão bonitos quanto. Só que: se não forem? Se crescem desgrenhados forçando rachaduras espaços boca nariz olhos? Se chegam ao coração?
Fumo é pra lidar com a ansiedade. E o medo. Deixei de lado o assassinato dos matos. Vai que - . E como meu destino não será tão cedo a casa, o cigarro ajuda a pastar o tempo. Acendo, olhos nos trilhos elevados do metrô. Mais um na estação Vila das Belezas.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Anedota reflexiva ou direito à tristeza
(contém spoiler de Diverta Mente [Inside Out, 2015] e da minha vida)
É um filme de criança, mas eu chorei quando, em Divertida Mente, o Amigo Imaginário fica no depósito de lembranças descartadas para que Alegria consiga subir, achar Tristeza e retornar à Torre de Comando da cabeça de Riley. Uma criancinha do meu lado, com seus, sei lá, quatro anos, adivinhando meus soluços, perguntou baixinho: "o seu também caiu lá?". Não sei se viu meu sorriso frouxo e o leve aceno de cabeça, mas a garotinha, cara de quem receia perder algo, enroscou-se no próprio peito, como se abraçasse alguém.
A verdade é que não lembro de ter tido amigos imaginários - se houveram, estão no limbo das lembranças que não mais acesso. E acho importante, talvez a parte mais importante do filme da Disney-Pixar, a reflexão sobre o papel da tristeza na formação da nossa personalidade. Sobretudo nos corridos dias de hoje, em que a tônica do ser feliz a todo e qualquer custo é a bandeira que muitos carregam. Interessante também é o fato de ser um filme para crianças que propõe tal reflexão. Talvez os pais, tios (como é o meu caso) e adultos em geral tenham sido pegos de surpresa pela mensagem nada implícita do filme. Sim: só a Alegria no comando faz a gente fazer burrada. Sim: Tristeza é importante porque nos dá clareza quanto ao que fazer. Sim: Tristeza e Alegria não se anulam. Tudo talvez muito óbvio mas, como minha irmã adora dizer, o óbvio precisa ser dito. Entendê-lo faz parte do processo de amadurecimento.
É um filme de criança, mas eu chorei quando, em Divertida Mente, o Amigo Imaginário fica no depósito de lembranças descartadas para que Alegria consiga subir, achar Tristeza e retornar à Torre de Comando da cabeça de Riley. Uma criancinha do meu lado, com seus, sei lá, quatro anos, adivinhando meus soluços, perguntou baixinho: "o seu também caiu lá?". Não sei se viu meu sorriso frouxo e o leve aceno de cabeça, mas a garotinha, cara de quem receia perder algo, enroscou-se no próprio peito, como se abraçasse alguém.
A verdade é que não lembro de ter tido amigos imaginários - se houveram, estão no limbo das lembranças que não mais acesso. E acho importante, talvez a parte mais importante do filme da Disney-Pixar, a reflexão sobre o papel da tristeza na formação da nossa personalidade. Sobretudo nos corridos dias de hoje, em que a tônica do ser feliz a todo e qualquer custo é a bandeira que muitos carregam. Interessante também é o fato de ser um filme para crianças que propõe tal reflexão. Talvez os pais, tios (como é o meu caso) e adultos em geral tenham sido pegos de surpresa pela mensagem nada implícita do filme. Sim: só a Alegria no comando faz a gente fazer burrada. Sim: Tristeza é importante porque nos dá clareza quanto ao que fazer. Sim: Tristeza e Alegria não se anulam. Tudo talvez muito óbvio mas, como minha irmã adora dizer, o óbvio precisa ser dito. Entendê-lo faz parte do processo de amadurecimento.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
Todavia, a vida
A poesia de Michele Santos já esteve em sala de aula comigo, sem eu a perceber. Em 2013, ano ímpar que marcou o início do retorno do meu Saturno, sua voz aguçava os ouvidos dos meus estudantes em uma aula que preparei sobre o cenário dos saraus nas periferias de SP. Mas foram os cavalos que atraíram meus olhos às suas palavras:
"Como se doma a alma
de quem carrega cavalos
no peito?"
Sabe aquelas coisas que a gente ouve e fica, durante muito muito tempo, reverberando no de-dentro da gente? Pois. E não foi diferente com seu primeiro livro, Toda via,, lançado há pouco menos de um mês. Já o li na sequência e fora dela, no trabalho e em casa, em voz alta para amigos e para mim mesmo. E não há nada que o faça calar no aqui dentro. Ainda bem, porque poesia boa tem que permanecer na gente.
Ler Toda via, é um esforço de sentidos. Está além de olhos (como fala Janaina Moitinho no prefácio) e ouvidos (alguns me dóem na pele ("Cão", "Othelo's")). Seus poemas pedem mais que um raciocínio cerebral, obrigam a gente a ler com o coração - e ler com o coração é por o músculo em exposição, vulnerável às adagas da dúvida, à mercê de um atropelamento na BR-316. Mas o risco vale - e muito - a pena.
O livro nasce com uma madureza pouco comum às primeiras obras. Isto mostra o empenho e dedicação ao ofício de poeta de quem traz a palavra na pele. Tem um quê de um versinho do Bandeira ("a vida inteira que podia ter sido e que não foi"), mas, creio eu, muito mais daquilo que pensa Hilda Hilst acerca da poesia:
"[o poema] é como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida. Um soco certamente te acorda e, se for em cheio, faz cair a tua máscara, essa frívola, repugnante, empolada máscara que tentamos manter para atrair ou assustar"
Acerta a gente em cheio a poesia dessa moça. Serve como as melhores roupas, as melhores carapuças. Flui em nós espontânea como parte da própria vida. Grande estreia. Dada aos bifes, só nos resta partilhar da mesma entrega. Demo-nos também.
final de dezembro de 2015
sábado, 19 de dezembro de 2015
prenúncio
Manso, como um sobrenome do oriente, você veio. Talvez a trilha fosse outra, talvez o calor menos ameno -
- eu estava armado. Escudo em mãos. É que a gente vai, sem perceber, desenhando ameaças em toda esquina. Antes fosse apenas o escudo, mas a gente vai, sem perceber, andando de um jeito torto, pronto pra surpreender -
E ataco querendo não querendo. A gente aprende a usar o ataque como defesa. Desculpa. Eu, de tanto sentir o azedo das palavras apodrecidas pelo tempo, sei que desculpar-se não vai lavrar o chão. O cravo - ou outra flor - não vai brotar. Não mais.
Você vai. Sorte que tenha a inteligência do pássaro que sabe a hora de buscar o verão. Eu, árvore sem nome (os nomes não alteram o perfume das acácias), mantenho firme o coração de pedra-pomes. Sentindo as folhas caírem. As palavras secarem. Mais uma vez a gente prende o grito e a vontade e depois transforma tudo em cena de filme de ação ou poema barroco.
E dorme, sem fim.
- eu estava armado. Escudo em mãos. É que a gente vai, sem perceber, desenhando ameaças em toda esquina. Antes fosse apenas o escudo, mas a gente vai, sem perceber, andando de um jeito torto, pronto pra surpreender -
E ataco querendo não querendo. A gente aprende a usar o ataque como defesa. Desculpa. Eu, de tanto sentir o azedo das palavras apodrecidas pelo tempo, sei que desculpar-se não vai lavrar o chão. O cravo - ou outra flor - não vai brotar. Não mais.
Você vai. Sorte que tenha a inteligência do pássaro que sabe a hora de buscar o verão. Eu, árvore sem nome (os nomes não alteram o perfume das acácias), mantenho firme o coração de pedra-pomes. Sentindo as folhas caírem. As palavras secarem. Mais uma vez a gente prende o grito e a vontade e depois transforma tudo em cena de filme de ação ou poema barroco.
E dorme, sem fim.
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
Academia (2)
Há, em sua obra, um claro esforço em visitar certas imagens. (...) Pássaro e árvore repetem-se em sua prosa poética evidenciando, talvez, um projeto temático, qual seja, uma espécie de brincadeira semântica que gira em torno de um conflito existencial traduzido na relação entre partir e ficar, em que o poeta explora as plurissignificações dos verbos-conceitos. Não se trata, todavia, como facilmente poderia se supor, somente do drama da morte e vida. Tal projeto desenha-se aquém e além dessas ideias: uma latente necessidade de viagem para além dos anéis de seu planeta, cerceada quase sempre pela impossibilidade de romper os laços com seu lugar de origem, até a transcendência ou não do "espírito"¹. Do contato entre pássaro e árvore, em diversos momentos, aflora uma situação de impasse. Não um impasse paralítico: é, antes, um estado de quase epifania. Como se o eu-poemático estivesse a um passo da Grande Revelação. A melancolia, característica mais evidente dos poemas que trazem estas imagens, é talvez a energia condensada no momento apórico. O pássaro irá negar o vôo? A árvore se libertará das raízes? Não há (...)
¹ O conceito de "espírito" é o que mais se aproxima daquilo que os habitantes de Saturno chamam de kaval-dûr. No entanto, a tradução mais literal do termo seria "poço". Os habitantes do planeta acreditam que cada criatura é um poço infinito de onde emana todos os sentimentos, pensamentos e desejos, e o corpo é apenas a superfície visível dele. Transcender seria chegar ao ponto em que todos os poços se conectam, o draleir krav, ou fonte primordial.
domingo, 4 de outubro de 2015
sábado, 19 de setembro de 2015
textos voantes
(algo como uma prece pros próximos anos)
Tomo longos goles do líquido escuro que brota do meu peito. Deixo-os escorrer da camisa branca à folha amarelada. Não sempre mas deste contato tão prosaico sai, par em par, umas asas coloridas. Borboletas, eu sei. E rio feliz porque aprendi: onde há borboletas há também nascentes.
***
Da memória sexagenária aos futuros planos abortados, tudo no aqui-dentro - quero costurar umas asas bem bonitas. Fazer voar as dores, deixar o amor conhecer a estratosfera. Assim: no espalho quem sabe eu me acho. E encontre quem me junte.
***
Dizem: a poesia é livre.
Mas o poema é ave em cativeiro.
(são os únicos - os únicos - pássaros que gostam de gaiolas).
***
Melancólico é o coração-árvore com desejo de asas
ave-
-nturas.
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