terça-feira, 18 de agosto de 2015

Auto-ajuda

Preste atenção, Dolores.
Certas coisas são tão claras de entender que você nem se dá conta. Aprenda a enxergar.

- A próxima temporada do seriado que você acompanha não estará disponível amanhã no Netflix só porque você está deprimida;

- Se você esquecer o arroz enquanto fala ao telefone, é provável que fique sem parte do jantar;

- Ser mulher não te livra de ser machista;

- Ser negra não te livra de ser racista;

- Ser gay não te livra de ser homofóbica;

- Mas se você não é mulher, negra ou gay, pense bem antes de falar qualquer coisa a respeito (considere que ficar calada, às vezes, é o melhor que você pode fazer);

- Não meça as pessoas. Elas têm o tamanho que conseguiram atingir. Algumas maiores que você. Outras, menores. Você não poderá esticá-las. Além disso, você não é régua para servir de parâmetro para ninguém;

- Legião Urbana não é remédio;

- Trabalho não é remédio;

- Beber e fumar não é remédio (mas é mais gostoso que trabalhar e ouvir Legião);

- Pense algumas merdas de vez em quando, mas lembre-se: o facebook não é o pinico onde você se alivia;

- Falando em face, você nunca terá certeza de que suas indiretas acertarão o alvo (porque são indiretas). Aceite isso e deixe de drama, ou passe a mandar diretas;

- Nem sempre as nudes serão retribuídas;

- Cavaleiros do Zodíaco é só um desenho que fez sucesso na década de 90, feito para crianças da década de 90. Não espere que os adultos dos anos 2000 tenham os mesmos princípios morais e éticos daqueles jovens guerreiros de armadura;

- Há amigos que sabem no que você é boa. E há amigos que sabem que você é boa pessoa. Os primeiros só aparecem quando precisam. Os segundos não desaparecem;

- Aliás, não é Amizade se as partes envolvidas só se veem quando uma precisa da outra, ou quando só há uma parte interessada. O nome disso é negócio;

- A religião até te ajuda nos momentos de crise, mas você a ajuda muito mais;

- Regue as plantas, principalmente se você for, além delas, o único ser vivo da casa;

- Existem os que sabem explicar as vitórias-régias, e  outros que sabem ser como elas; escolha, então, entre quem é só discurso e quem é prática de verdade;

- A alegria é cega. A tristeza é muda. A raiva é surda.

- Se você anda sofrendo demais, desconfie. Pode não ser amor.

- Suas palavras não vão mudar o mundo. Nem as palavras de ninguém. Mas o seu lápis na mão de uma criança - também não. Agora, se você for capaz de se mudar a partir do lê e ouve, eis aí uma esperança (ou uma desgraça);

- Falando em palavras, o jornal é tão fantasioso quanto a ficção. Leia o que te dá maior prazer;

- A mulher que você precisa ser só surgirá quando a menina morrer. Por isso, sem cerimônias, mate a menina.

Textos de auto-ajuda são como fadas. Bonitinhos. Até inspiradores. Mas só são reais no mundo da fantasia. Se você quiser acreditar neles, vá em frente. A queda e o choro são por tua conta.



Micro-crônica de um assassinato

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
(Carlos Drummond de Andrade)



Houve um tempo em que estive feliz. Pouco mais de 365 dias de alegrias e certeza de chão. Fadas enfeitavam-me os sonhos: a parte de mim mais sólida e pura. Um dia o tempo virou. O solo converteu-se em areia movediça, e eu caía, afundava. Como âncoras amarradas aos meus pés, os sonhos não me deixavam subir. Debater-se não adiantava. Quietar só me faria sofrer menos. Situação-inseto, só uma solução. No corte, uma orquídea.

Continuo sonhando. Agora mais leve, sem horizontes. De enfeite: uma flor. Nela eu acredito.

sábado, 27 de junho de 2015

quarta-feira, 17 de junho de 2015

canário belga

Já que voou sem dizer adeus
transmuto-lhe em palavra
para que saia de mim
e permaneça comigo.


domingo, 24 de maio de 2015

subterrâneos

Poço fundo
eu grito
O poema
um eco
que chega à
superfície

Túnel longo
de luz incerta
ao final
O poeta descrê e
espera outro trem
em sua -

sexta-feira, 8 de maio de 2015

decoração (poeminhas para encurtar a noite)

Dilema

Amar tem sido como comprar sapatos:
o modelo você gosta
mas não te entra no pé.



Defeito de fábrica

este bombeador de sensações¹ só quer saber do que não lhe corresponde.



2

Há dois anos chovo. 
Dissolvi-me pele músculos ossos.

Não desfiz-se-me ainda coração.



Só rindo

A vida anda engraçada, igual cartum
com meu coração fazendo papel de bigorna.



O pior

Anoiteci nos poemas que escrevi pensando em você.
O coração ficou acordado, incomodado, tentando arrancar o vermelho do seu sorriso que entupiu minhas artérias.

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¹ "Coração de porco" In: Ondjaki. E se amanhã o medo. RJ: Língua Geral, 2010