sábado, 19 de dezembro de 2015

prenúncio

Manso, como um sobrenome do oriente, você veio. Talvez a trilha fosse outra, talvez o calor menos ameno -
- eu estava armado. Escudo em mãos. É que a gente vai, sem perceber, desenhando ameaças em toda esquina. Antes fosse apenas o escudo, mas a gente vai, sem perceber, andando de um jeito torto, pronto pra surpreender -
E ataco querendo não querendo. A gente aprende a usar o ataque como defesa. Desculpa. Eu, de tanto sentir o azedo das palavras apodrecidas pelo tempo, sei que desculpar-se não vai lavrar o chão. O cravo - ou outra flor - não vai brotar. Não mais.
Você vai. Sorte que tenha a inteligência do pássaro que sabe a hora de buscar o verão. Eu, árvore sem nome (os nomes não alteram o perfume das acácias), mantenho firme o coração de pedra-pomes. Sentindo as folhas caírem. As palavras secarem. Mais uma vez a gente prende o grito e a vontade e depois transforma tudo em cena de filme de ação ou poema barroco.
E dorme, sem fim.



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Academia (2)

Há, em sua obra, um claro esforço em visitar certas imagens. (...) Pássaro e árvore repetem-se em sua prosa poética evidenciando, talvez, um projeto temático, qual seja, uma espécie de brincadeira semântica que gira em torno de um conflito existencial traduzido na relação entre partir e ficar, em que o poeta explora as plurissignificações dos verbos-conceitos. Não se trata, todavia, como facilmente poderia se supor, somente do drama da morte e vida. Tal projeto desenha-se aquém e além dessas ideias: uma latente necessidade de viagem para além dos anéis de seu planeta, cerceada quase sempre pela impossibilidade de romper os laços com seu lugar de origem, até a transcendência ou não do "espírito"¹. Do contato entre pássaro e árvore, em diversos momentos, aflora uma situação de impasse. Não um impasse paralítico: é, antes, um estado de quase epifania. Como se o eu-poemático estivesse a um passo da Grande Revelação. A melancolia, característica mais evidente dos poemas que trazem estas imagens, é talvez a energia condensada no momento apórico. O pássaro irá negar o vôo? A árvore se libertará das raízes? Não há (...)







¹ O conceito de "espírito" é o que mais se aproxima daquilo que os habitantes de Saturno chamam de kaval-dûr. No entanto, a tradução mais literal do termo seria "poço". Os habitantes do planeta acreditam que cada criatura é um poço infinito de onde emana todos os sentimentos, pensamentos e desejos, e o corpo é apenas a superfície visível dele. Transcender seria chegar ao ponto em que todos os poços se conectam, o draleir krav, ou fonte primordial.

sábado, 19 de setembro de 2015

textos voantes

(algo como uma prece pros próximos anos)

Tomo longos goles do líquido escuro que brota do meu peito. Deixo-os escorrer da camisa branca à folha amarelada. Não sempre mas deste contato tão prosaico sai, par em par, umas asas coloridas. Borboletas, eu sei. E rio feliz porque aprendi: onde há borboletas há também nascentes.

***

Da memória sexagenária aos futuros planos abortados, tudo no aqui-dentro - quero costurar umas asas bem bonitas. Fazer voar as dores, deixar o amor conhecer a estratosfera. Assim: no espalho quem sabe eu me acho. E encontre quem me junte.

***

Dizem: a poesia é livre.
Mas o poema é ave em cativeiro.
(são os únicos - os únicos - pássaros que gostam de gaiolas).

***

Melancólico é o coração-árvore com desejo de asas
ave-
    -nturas.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Concreto para um coração (ser de) cimento

(mudo diálogo com a poesia de ni brisant)

amor taça
amortece
amor desse
amordaça
amor desce
a morder-se
amar tece
amor tecido
amor dura?
[armadura]

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Auto-ajuda

Preste atenção, Dolores.
Certas coisas são tão claras de entender que você nem se dá conta. Aprenda a enxergar.

- A próxima temporada do seriado que você acompanha não estará disponível amanhã no Netflix só porque você está deprimida;

- Se você esquecer o arroz enquanto fala ao telefone, é provável que fique sem parte do jantar;

- Ser mulher não te livra de ser machista;

- Ser negra não te livra de ser racista;

- Ser gay não te livra de ser homofóbica;

- Mas se você não é mulher, negra ou gay, pense bem antes de falar qualquer coisa a respeito (considere que ficar calada, às vezes, é o melhor que você pode fazer);

- Não meça as pessoas. Elas têm o tamanho que conseguiram atingir. Algumas maiores que você. Outras, menores. Você não poderá esticá-las. Além disso, você não é régua para servir de parâmetro para ninguém;

- Legião Urbana não é remédio;

- Trabalho não é remédio;

- Beber e fumar não é remédio (mas é mais gostoso que trabalhar e ouvir Legião);

- Pense algumas merdas de vez em quando, mas lembre-se: o facebook não é o pinico onde você se alivia;

- Falando em face, você nunca terá certeza de que suas indiretas acertarão o alvo (porque são indiretas). Aceite isso e deixe de drama, ou passe a mandar diretas;

- Nem sempre as nudes serão retribuídas;

- Cavaleiros do Zodíaco é só um desenho que fez sucesso na década de 90, feito para crianças da década de 90. Não espere que os adultos dos anos 2000 tenham os mesmos princípios morais e éticos daqueles jovens guerreiros de armadura;

- Há amigos que sabem no que você é boa. E há amigos que sabem que você é boa pessoa. Os primeiros só aparecem quando precisam. Os segundos não desaparecem;

- Aliás, não é Amizade se as partes envolvidas só se veem quando uma precisa da outra, ou quando só há uma parte interessada. O nome disso é negócio;

- A religião até te ajuda nos momentos de crise, mas você a ajuda muito mais;

- Regue as plantas, principalmente se você for, além delas, o único ser vivo da casa;

- Existem os que sabem explicar as vitórias-régias, e  outros que sabem ser como elas; escolha, então, entre quem é só discurso e quem é prática de verdade;

- A alegria é cega. A tristeza é muda. A raiva é surda.

- Se você anda sofrendo demais, desconfie. Pode não ser amor.

- Suas palavras não vão mudar o mundo. Nem as palavras de ninguém. Mas o seu lápis na mão de uma criança - também não. Agora, se você for capaz de se mudar a partir do lê e ouve, eis aí uma esperança (ou uma desgraça);

- Falando em palavras, o jornal é tão fantasioso quanto a ficção. Leia o que te dá maior prazer;

- A mulher que você precisa ser só surgirá quando a menina morrer. Por isso, sem cerimônias, mate a menina.

Textos de auto-ajuda são como fadas. Bonitinhos. Até inspiradores. Mas só são reais no mundo da fantasia. Se você quiser acreditar neles, vá em frente. A queda e o choro são por tua conta.



Micro-crônica de um assassinato

Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
(Carlos Drummond de Andrade)



Houve um tempo em que estive feliz. Pouco mais de 365 dias de alegrias e certeza de chão. Fadas enfeitavam-me os sonhos: a parte de mim mais sólida e pura. Um dia o tempo virou. O solo converteu-se em areia movediça, e eu caía, afundava. Como âncoras amarradas aos meus pés, os sonhos não me deixavam subir. Debater-se não adiantava. Quietar só me faria sofrer menos. Situação-inseto, só uma solução. No corte, uma orquídea.

Continuo sonhando. Agora mais leve, sem horizontes. De enfeite: uma flor. Nela eu acredito.