Manso, como um sobrenome do oriente, você veio. Talvez a trilha fosse outra, talvez o calor menos ameno -
- eu estava armado. Escudo em mãos. É que a gente vai, sem perceber, desenhando ameaças em toda esquina. Antes fosse apenas o escudo, mas a gente vai, sem perceber, andando de um jeito torto, pronto pra surpreender -
E ataco querendo não querendo. A gente aprende a usar o ataque como defesa. Desculpa. Eu, de tanto sentir o azedo das palavras apodrecidas pelo tempo, sei que desculpar-se não vai lavrar o chão. O cravo - ou outra flor - não vai brotar. Não mais.
Você vai. Sorte que tenha a inteligência do pássaro que sabe a hora de buscar o verão. Eu, árvore sem nome (os nomes não alteram o perfume das acácias), mantenho firme o coração de pedra-pomes. Sentindo as folhas caírem. As palavras secarem. Mais uma vez a gente prende o grito e a vontade e depois transforma tudo em cena de filme de ação ou poema barroco.
E dorme, sem fim.
sábado, 19 de dezembro de 2015
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
Academia (2)
Há, em sua obra, um claro esforço em visitar certas imagens. (...) Pássaro e árvore repetem-se em sua prosa poética evidenciando, talvez, um projeto temático, qual seja, uma espécie de brincadeira semântica que gira em torno de um conflito existencial traduzido na relação entre partir e ficar, em que o poeta explora as plurissignificações dos verbos-conceitos. Não se trata, todavia, como facilmente poderia se supor, somente do drama da morte e vida. Tal projeto desenha-se aquém e além dessas ideias: uma latente necessidade de viagem para além dos anéis de seu planeta, cerceada quase sempre pela impossibilidade de romper os laços com seu lugar de origem, até a transcendência ou não do "espírito"¹. Do contato entre pássaro e árvore, em diversos momentos, aflora uma situação de impasse. Não um impasse paralítico: é, antes, um estado de quase epifania. Como se o eu-poemático estivesse a um passo da Grande Revelação. A melancolia, característica mais evidente dos poemas que trazem estas imagens, é talvez a energia condensada no momento apórico. O pássaro irá negar o vôo? A árvore se libertará das raízes? Não há (...)
¹ O conceito de "espírito" é o que mais se aproxima daquilo que os habitantes de Saturno chamam de kaval-dûr. No entanto, a tradução mais literal do termo seria "poço". Os habitantes do planeta acreditam que cada criatura é um poço infinito de onde emana todos os sentimentos, pensamentos e desejos, e o corpo é apenas a superfície visível dele. Transcender seria chegar ao ponto em que todos os poços se conectam, o draleir krav, ou fonte primordial.
domingo, 4 de outubro de 2015
sábado, 19 de setembro de 2015
textos voantes
(algo como uma prece pros próximos anos)
Tomo longos goles do líquido escuro que brota do meu peito. Deixo-os escorrer da camisa branca à folha amarelada. Não sempre mas deste contato tão prosaico sai, par em par, umas asas coloridas. Borboletas, eu sei. E rio feliz porque aprendi: onde há borboletas há também nascentes.
***
Da memória sexagenária aos futuros planos abortados, tudo no aqui-dentro - quero costurar umas asas bem bonitas. Fazer voar as dores, deixar o amor conhecer a estratosfera. Assim: no espalho quem sabe eu me acho. E encontre quem me junte.
***
Dizem: a poesia é livre.
Mas o poema é ave em cativeiro.
(são os únicos - os únicos - pássaros que gostam de gaiolas).
***
Melancólico é o coração-árvore com desejo de asas
ave-
-nturas.
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Concreto para um coração (ser de) cimento
(mudo diálogo com a poesia de ni brisant)
amor taça
amortece
amor desse
amordaça
amor desce
a morder-se
amar tece
amor tecido
amor dura?
[armadura]
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Auto-ajuda
Preste atenção, Dolores.
Certas coisas são tão claras de entender que você nem se dá conta. Aprenda a enxergar.
- A próxima temporada do seriado que você acompanha não estará disponível amanhã no Netflix só porque você está deprimida;
- Se você esquecer o arroz enquanto fala ao telefone, é provável que fique sem parte do jantar;
- Ser mulher não te livra de ser machista;
- Ser negra não te livra de ser racista;
- Ser gay não te livra de ser homofóbica;
- Mas se você não é mulher, negra ou gay, pense bem antes de falar qualquer coisa a respeito (considere que ficar calada, às vezes, é o melhor que você pode fazer);
- Não meça as pessoas. Elas têm o tamanho que conseguiram atingir. Algumas maiores que você. Outras, menores. Você não poderá esticá-las. Além disso, você não é régua para servir de parâmetro para ninguém;
- Legião Urbana não é remédio;
- Trabalho não é remédio;
- Beber e fumar não é remédio (mas é mais gostoso que trabalhar e ouvir Legião);
- Pense algumas merdas de vez em quando, mas lembre-se: o facebook não é o pinico onde você se alivia;
- Falando em face, você nunca terá certeza de que suas indiretas acertarão o alvo (porque são indiretas). Aceite isso e deixe de drama, ou passe a mandar diretas;
- Nem sempre as nudes serão retribuídas;
- Cavaleiros do Zodíaco é só um desenho que fez sucesso na década de 90, feito para crianças da década de 90. Não espere que os adultos dos anos 2000 tenham os mesmos princípios morais e éticos daqueles jovens guerreiros de armadura;
- Há amigos que sabem no que você é boa. E há amigos que sabem que você é boa pessoa. Os primeiros só aparecem quando precisam. Os segundos não desaparecem;
- Aliás, não é Amizade se as partes envolvidas só se veem quando uma precisa da outra, ou quando só há uma parte interessada. O nome disso é negócio;
- A religião até te ajuda nos momentos de crise, mas você a ajuda muito mais;
- Regue as plantas, principalmente se você for, além delas, o único ser vivo da casa;
- Existem os que sabem explicar as vitórias-régias, e outros que sabem ser como elas; escolha, então, entre quem é só discurso e quem é prática de verdade;
- A alegria é cega. A tristeza é muda. A raiva é surda.
- Se você anda sofrendo demais, desconfie. Pode não ser amor.
- Suas palavras não vão mudar o mundo. Nem as palavras de ninguém. Mas o seu lápis na mão de uma criança - também não. Agora, se você for capaz de se mudar a partir do lê e ouve, eis aí uma esperança (ou uma desgraça);
- Falando em palavras, o jornal é tão fantasioso quanto a ficção. Leia o que te dá maior prazer;
- A mulher que você precisa ser só surgirá quando a menina morrer. Por isso, sem cerimônias, mate a menina.
Textos de auto-ajuda são como fadas. Bonitinhos. Até inspiradores. Mas só são reais no mundo da fantasia. Se você quiser acreditar neles, vá em frente. A queda e o choro são por tua conta.
Certas coisas são tão claras de entender que você nem se dá conta. Aprenda a enxergar.
- A próxima temporada do seriado que você acompanha não estará disponível amanhã no Netflix só porque você está deprimida;
- Se você esquecer o arroz enquanto fala ao telefone, é provável que fique sem parte do jantar;
- Ser mulher não te livra de ser machista;
- Ser negra não te livra de ser racista;
- Ser gay não te livra de ser homofóbica;
- Mas se você não é mulher, negra ou gay, pense bem antes de falar qualquer coisa a respeito (considere que ficar calada, às vezes, é o melhor que você pode fazer);
- Não meça as pessoas. Elas têm o tamanho que conseguiram atingir. Algumas maiores que você. Outras, menores. Você não poderá esticá-las. Além disso, você não é régua para servir de parâmetro para ninguém;
- Legião Urbana não é remédio;
- Trabalho não é remédio;
- Beber e fumar não é remédio (mas é mais gostoso que trabalhar e ouvir Legião);
- Pense algumas merdas de vez em quando, mas lembre-se: o facebook não é o pinico onde você se alivia;
- Falando em face, você nunca terá certeza de que suas indiretas acertarão o alvo (porque são indiretas). Aceite isso e deixe de drama, ou passe a mandar diretas;
- Nem sempre as nudes serão retribuídas;
- Cavaleiros do Zodíaco é só um desenho que fez sucesso na década de 90, feito para crianças da década de 90. Não espere que os adultos dos anos 2000 tenham os mesmos princípios morais e éticos daqueles jovens guerreiros de armadura;
- Há amigos que sabem no que você é boa. E há amigos que sabem que você é boa pessoa. Os primeiros só aparecem quando precisam. Os segundos não desaparecem;
- Aliás, não é Amizade se as partes envolvidas só se veem quando uma precisa da outra, ou quando só há uma parte interessada. O nome disso é negócio;
- A religião até te ajuda nos momentos de crise, mas você a ajuda muito mais;
- Regue as plantas, principalmente se você for, além delas, o único ser vivo da casa;
- Existem os que sabem explicar as vitórias-régias, e outros que sabem ser como elas; escolha, então, entre quem é só discurso e quem é prática de verdade;
- A alegria é cega. A tristeza é muda. A raiva é surda.
- Se você anda sofrendo demais, desconfie. Pode não ser amor.
- Suas palavras não vão mudar o mundo. Nem as palavras de ninguém. Mas o seu lápis na mão de uma criança - também não. Agora, se você for capaz de se mudar a partir do lê e ouve, eis aí uma esperança (ou uma desgraça);
- Falando em palavras, o jornal é tão fantasioso quanto a ficção. Leia o que te dá maior prazer;
- A mulher que você precisa ser só surgirá quando a menina morrer. Por isso, sem cerimônias, mate a menina.
Textos de auto-ajuda são como fadas. Bonitinhos. Até inspiradores. Mas só são reais no mundo da fantasia. Se você quiser acreditar neles, vá em frente. A queda e o choro são por tua conta.
Micro-crônica de um assassinato
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
(Carlos Drummond de Andrade)
Houve um tempo em que estive feliz. Pouco mais de 365 dias de alegrias e certeza de chão. Fadas enfeitavam-me os sonhos: a parte de mim mais sólida e pura. Um dia o tempo virou. O solo converteu-se em areia movediça, e eu caía, afundava. Como âncoras amarradas aos meus pés, os sonhos não me deixavam subir. Debater-se não adiantava. Quietar só me faria sofrer menos. Situação-inseto, só uma solução. No corte, uma orquídea.
Continuo sonhando. Agora mais leve, sem horizontes. De enfeite: uma flor. Nela eu acredito.
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