sexta-feira, 8 de maio de 2015

decoração (poeminhas para encurtar a noite)

Dilema

Amar tem sido como comprar sapatos:
o modelo você gosta
mas não te entra no pé.



Defeito de fábrica

este bombeador de sensações¹ só quer saber do que não lhe corresponde.



2

Há dois anos chovo. 
Dissolvi-me pele músculos ossos.

Não desfiz-se-me ainda coração.



Só rindo

A vida anda engraçada, igual cartum
com meu coração fazendo papel de bigorna.



O pior

Anoiteci nos poemas que escrevi pensando em você.
O coração ficou acordado, incomodado, tentando arrancar o vermelho do seu sorriso que entupiu minhas artérias.

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¹ "Coração de porco" In: Ondjaki. E se amanhã o medo. RJ: Língua Geral, 2010

domingo, 3 de maio de 2015

recaída

"de onde vem o jeito tão sem defeito
que esse rapaz consegue fingir?
Olha esse sorriso tão indeciso
tá se exibindo pra solidão"
(de onde vem a calma, Marcelo Camelo)


não há nenhum remédio que te salve. aquela pessoa fantástica e incrível e tudo que você quis te quis e você não quis, só para continuar escrevendo com o cotovelo tão sovado de tombos e esperas, a crosta de sangue cobrindo o peito cravejado. já casou com sua dor? porque sim, caso você se recuse a aceitar, ela, a dor, é a única companheira, e o pior é que não é escolha da dor, é sua, só sua, e ela já fugiu de você, mostrou desinteresse, e você insiste em correr atrás, procurá-la nos lugares onde é fácil encontrá-la. mas quero te dizer: não faz sentido. se ao menos este relacionamento de mão única com sua dor rendesse um punhado de bons poemas, uma meia dúzia de boa prosa. você sabe que não rende. tornou-se bom crítico de si e dos outros, sabe reconhecer o primor de um poeta, dum prosador. ou você tem algum prazer em saber-se ruim naquilo que mais gostaria de fazer bem? se for, é novidade para mim. não imaginei que sua inclinação à dor fosse tamanha. deve ser amor mesmo, afinal. então aceita essa sua condição de ama-dor deixando de fingir que busca se recuperar das perdas porque você não busca, fica fingindo quando se olha no espelho que vai fazer diferente e não faz. você vê o que enxerga no espelho? aquele mesmo menino de quatorze anos com as olheiras de agora, a mesma angústia talvez mas com outras lágrimas. sem lágrimas até. sempre te faltou coragem para quebrar o espelho porque você julga mais importante ficar olhando para dentro de si do que para o mundo que se estende atrás da imagem refletida. não ficou claro após quinze anos que a resposta, para o que for, não está aí nesta cara inchada? o ódio, eis uma novidade, mas não adianta simulá-lo, como você faz, achando que dar nomes aos bois alivia o desespero. quem te precisa ouvir usando a palavra que aprendeu - talarico - não é o seu irmão, nem seus amigos. falar à lua que você se sentiu como um copo descartável te alivia do que? deixa de lado esse ódio fingido e permanece na dor, que dela você não escapa, pelo jeito. te faz falta o mundo sorrir naqueles olhos emoldurados por um vermelho intenso. te faz falta a afinidade de ideias. e? foi escolha. sua. você sempre admirou os que lutam por amor enquanto preferia obliviar seus próprios happy ends. o tempo passou, e é provável que haja nenhum remédio que te salve.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

domingo, 29 de março de 2015

barros. brincando de ser manoel

"vi o açude sem ter água
e secou até a mágoa
e os meninos sem comer, sem beber, sem viver"
(Nino Miau, Sol do cangaço)


amor não é,
faz. brotar setembros, adormecer marços.
lembrança sim: nuvem carregada. cai uma, duas vezes no domingo.
mágoa, palavra molhada, encharcada na primeira bátega.
ódio é sol e céu aberto. seca das nascentes.
rancor é chão rachado, sem restolho e sombra de novo aguaceiro.
amigo é sempre água de cacimba.

saudade, um sussurro soprando a segunda chuva.

quarta-feira, 18 de março de 2015

alerta-vermelho

(poema-crônica inspirado em cena da peça O errante, da Brava Cia.)

      o lado de lá gosta de associar
      em metonímico processo
      o verde, às florestas;
      o amarelo, às riquezas;
      o azul, ao céu anil;
      e a faixa branca é a corrente do
progresso.
      acreditam que assim nascemos nação

eis, porém, que uma dúvida surge:
e o vermelho do sangue indígena
cobrindo o chão paulista
pintado por bandeirantes?
do sangue grudado
nos filhos nascidos
de violações?
do corte das árvores, do corte das orelhas
do corte dos laços com a terra-mãe?
o sangue das costas
depois de açoitada
a pele negra -
que escorre pelo dorso, pelo tronco, pelo barro batido?
o sangue que desceu pelo litoral
vindo do norte
pra levantar essa cidade?
o sangue que ainda corre nos morros
muros, favelas, becos e bares?

quando a paulista vestiu verdeamarelo
o sinal vermelho acendeu em meu olho.
do lado de cá andamos dispersos.

se é verdade que falta uma bandeira que nos
una
não tenhamos dúvidas de qual será sua cor
nem da mão com que iremos empunhá-la.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Porque ando mau dos olhos





Teu riso grudou na minha retina, deixou vermelha a transparência da conjuntiva. Até parece romantismo dizer isso, mas não, não é. Você me deixou doente. E bem quisera eu que a doença fosse só dos olhos.

domingo, 8 de março de 2015

Sem rosas, hoje

Enquanto só eu puder andar como quero nas ruas
- sem camisa, de samba-canção, fora de forma, com pêlos nas pernas e braços;

Enquanto só eu puder voltar de madrugada sozinho pra casa
- sem medo de ser violentado;

Enquanto só eu puder decidir sobre meu corpo
- assumir ou não filhos, ter prazer na hora que quiser;

Enquanto só eu tiver direito ao descanso em casa
- sem precisar me preocupar com a louça, a roupa, as crianças;

Enquanto só eu tiver o direito de transar com quem quiser
- sem ser chamado de vagabundo, vadio, vaco, puto, piranho, cachorro, pirigueto, facinho, rodado -etc;

Enquanto eu, ainda,
ganhar os melhores salários
tiver os melhores cargos
compuser mais de 80% dos cargos políticos
comandar religiões que me beneficiam, leis que me favorecem

Enquanto, ainda, eu não for culpabilizado
pelo estupro;
pela encoxada no ônibus;
pelo aborto praticado;

não posso, não devo
oferecer rosas.