quarta-feira, 18 de março de 2015

alerta-vermelho

(poema-crônica inspirado em cena da peça O errante, da Brava Cia.)

      o lado de lá gosta de associar
      em metonímico processo
      o verde, às florestas;
      o amarelo, às riquezas;
      o azul, ao céu anil;
      e a faixa branca é a corrente do
progresso.
      acreditam que assim nascemos nação

eis, porém, que uma dúvida surge:
e o vermelho do sangue indígena
cobrindo o chão paulista
pintado por bandeirantes?
do sangue grudado
nos filhos nascidos
de violações?
do corte das árvores, do corte das orelhas
do corte dos laços com a terra-mãe?
o sangue das costas
depois de açoitada
a pele negra -
que escorre pelo dorso, pelo tronco, pelo barro batido?
o sangue que desceu pelo litoral
vindo do norte
pra levantar essa cidade?
o sangue que ainda corre nos morros
muros, favelas, becos e bares?

quando a paulista vestiu verdeamarelo
o sinal vermelho acendeu em meu olho.
do lado de cá andamos dispersos.

se é verdade que falta uma bandeira que nos
una
não tenhamos dúvidas de qual será sua cor
nem da mão com que iremos empunhá-la.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Porque ando mau dos olhos





Teu riso grudou na minha retina, deixou vermelha a transparência da conjuntiva. Até parece romantismo dizer isso, mas não, não é. Você me deixou doente. E bem quisera eu que a doença fosse só dos olhos.

domingo, 8 de março de 2015

Sem rosas, hoje

Enquanto só eu puder andar como quero nas ruas
- sem camisa, de samba-canção, fora de forma, com pêlos nas pernas e braços;

Enquanto só eu puder voltar de madrugada sozinho pra casa
- sem medo de ser violentado;

Enquanto só eu puder decidir sobre meu corpo
- assumir ou não filhos, ter prazer na hora que quiser;

Enquanto só eu tiver direito ao descanso em casa
- sem precisar me preocupar com a louça, a roupa, as crianças;

Enquanto só eu tiver o direito de transar com quem quiser
- sem ser chamado de vagabundo, vadio, vaco, puto, piranho, cachorro, pirigueto, facinho, rodado -etc;

Enquanto eu, ainda,
ganhar os melhores salários
tiver os melhores cargos
compuser mais de 80% dos cargos políticos
comandar religiões que me beneficiam, leis que me favorecem

Enquanto, ainda, eu não for culpabilizado
pelo estupro;
pela encoxada no ônibus;
pelo aborto praticado;

não posso, não devo
oferecer rosas.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

sem título (da série "salão de festas da palavra")

este amor que não te falo, você sabe, mas não te falo, traz o cheiro aveludado da saudade,

e é como pássaro de asa cortada que reaprendeu a voar com o coração. haja tanto sangue pra levantar o corpo, alçar no ar o corpo, alcançar nuvens. haja pulmão pra impulsionar o peito de rubras plumas, galgar distâncias, demoras, cantar gritos de coragem.

este amor que você conhece, conhece e não mensura, é adubo, é semente, é raiz, é pé-de-pássaro anuncia-
dor de aurora. eu,

talvez você não saiba, toda manhã ainda voo perseguindo o cheiro que ficou.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

academia

(...)
Sabe-se que o poeta de Saturno desconhece o verso, mas não rejeita o título. Não vive nas nuvens, como os nossos: habita os maravilhosos anéis, isto porque o planeta é uma imensa bola de gás cujo núcleo, talvez rochoso, é selvagem demais até para as aventuras. Pouco sabe dos dias de sol e brisa fresca. Tal fato, todavia, não o impede de inventar tardes de calor em frente ao mar. Há mar em Saturno. São lodosos não obstante macios, e adequam-se perfeitamente às caminhadas noturnas e diurnas. O poeta de Saturno pratica caminhadas diárias como parte de seu processo criativo, o que é uma possível explicação, sugerem alguns críticos, para o tom prosaico de sua obra. Seus topoi mais expressivos são a terra como metáfora da vida; a dificuldade de criar raízes em lugares inóspitos; a festa como possibilidade de reinvenção de seu próprio mundo; e pássaros (ou suas asas, em explícito processo metonímico), símbolo não de liberdade, senão da tradução do ensejo do eu-poemático. É recorrente, ainda, a cor vermelha, associada a diferentes signos, mas possivelmente um reforço ao topos da terra.

A presente edição traduzida do original (...)

sem título


Não sei porque tua presença ainda ronda e escurece meu peito. Talvez seja o leite em pó que devoras tal qual criança. Os cabelos ruivos de Talita, mais intensos que tua barba. O café da tarde solitário, ou aquela canção de Bethânia (o que é teu já tá guardado), o mantra.

Escreveste-me em cacos, num pedaço de poema, palavra tua, descartada. Guardei-me. Guardei a pedra que o coração regurgitou. Um eu te amo que não passou pela garganta.

Já não inteiro outrora, hoje sou um caco de Pessoa, inconsciente de deuses. À espera do afago perdido. Num certo mês de setembro.

sábado, 24 de janeiro de 2015

breve crônica acerca dos primeiros dias de 2015

Viajar devia ser verbo transitivo direto. Tipo assim: eu viajo lugares, viajo pessoas e histórias. Também viajo línguas, viajo olhares, viajo lábios, viajo poemas. Viajo os cavalos de meu peito - imagem que roubei duma viagem que andava sonhando fazer.

Veja bem: acho (só acho) que viajar é mais o de dentro. A paisagem exterior é só uma tentativa de tradução desse idioma que carregamos quando colocamos os pés na estrada.

E talvez o principal: viajar nem sempre é se encontrar, mas é sempre se perder, chistes que a vida prega.



Ponte de acesso ao forte de São Matheus,
Cabo Frio-RJ. por Acacio Santos