quarta-feira, 21 de maio de 2014

filosofinha

Sempre admira-se a quem se ama.
Mas não
necessariamente
ama-se a quem se admira.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Para o dia deixar de ser

"Como se doma a alma
de quem carrega cavalos
no peito?"
(Michele Santos)

Hoje (só hoje)
queria ser daqueles poetas
que escrevem arco-íris.

domingo, 4 de maio de 2014

Das falhas no tempo

Sonho um dia ter lido
Luandino
domingo
à cama deitado
em alto sussurro
enquanto sua cabeça repousava
sobre meu peito descoberto.

domingo, 6 de abril de 2014

Desassossego de Bernardo, ou era meu?

Cansado de só dizer boa noite.
Quando voltarei a dizer, numa manhã de estação qualquer,
bom dia?

Cansado de só dizer adeus.
Quando voltarei a dizer, findado um longo domingo de espera,
bem-vindo?

sexta-feira, 28 de março de 2014

Perguntas (retóricas) de um homem que questiona seus privilégios

Já nos disseram que precisamos raspar os pêlos, cuidar do cabelo e do corpo e se preocupar com as rugas?
Já nos indicaram a roupa que devemos vestir, como nos comportar?
Já nos pediram para sentar de pernas cruzadas?
Nossos corpos já foram objeto de desejo em propagandas de carro e de cerveja?
Precisamos ser bonitos e gostosos para sermos ouvidos?
Sugeriram alguma vez que nossa raiva ou estresse ou qualquer outro sentimento tivesse ligação com alguma causa biológica - TPM?
Já nos disseram que, para sermos completos, era necessário termos filhos?
Já culparam o nosso sexo pelas barbeiragens no trânsito?
É comum sermos assediados na rua, mesmo andando sem camisa ou de cueca samba-canção?
Aliás, já assobiaram ou gritaram baixarias para nós, justificando que gostamos dos "elogios"?
Nossa bunda é olhada na rua como se fosse um pedaço de carne a ser devorada?
Já disseram que precisávamos de um vagão especial em trens para não sermos assediados (como se fôssemos nós os culpados)?
As roupas que usamos (ou a falta delas) já foi considerada convite a uma apalpada, um encostão, uma encoxada?
Quantas vezes já fomos encoxados em ônibus?
Já andamos de madrugada, sozinhos, com medo de sermos estuprados?
Alguém do nosso gênero já foi culpabilizado, aliás, por uma violência que sofreu, só porque estava com uma roupa "inadequada"?
Já nos classificaram em grupos de "pra casar" e "pra curtir"?
Somos chamados de "vadios" quando temos várias parceiras?
Somos condenados por transar no primeiro encontro?
Temos quantos casos de fotos íntimas de espécimes do nosso gênero vazadas na internet?
Temos uma religião que tivesse nos condenado à inferioridade e justificasse nossa submissão?

Só nos disseram que não devíamos chorar, porque isso é coisa de mulherzinha; que devíamos pegar quantas mulheres fossem possível (e contar depois aos comparsas), e que devíamos espancar qualquer homem que se comportasse como mulher... É. É a mulher que tentamos matar em cada homossexual que apanha.

Se ainda falta clareza ao recado, vai a dica, papo reto: o primeiro passo para romper com o machismo é reconhecer os privilégios que temos só por sermos homens. O segundo é lutar por um mundo em que não haja distinções entre Santa-Marias e Madalenas.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Enquanto vejo Medianeras pela terceira vez

(para o Rafa, o Ni e a Rose. a Luca e a Angélique. o Thi. e Ela )

É sobre mim.
É sobre quem sempre fui.
Não é sobre alguém.

Hoje vou crer no amor. Crença pura e simples. Sem teorias, academicismos ou reflexões demoradas. Sem pedantismos. Sem angustiar-me por não estar descrevendo as mazelas do mundo que me rodeia e exaspera, me incitando à luta. E não quero falar desta luta.

É sobre o amor. Crer na importância de falar dele. Desordenadamente. Abstendo-se das regras e dos cuidados estéticos que sempre me colocam medo. É o amor prosaico, que sobe do rés do chão, escala as paredes, brota no concreto cinza e desalmado da cidade. Que anima a cidade.

Crer no amor sem máscaras, sem rótulos, sem receitas para dias bons. No amor-essência que sempre está, sempre é. No amor-presente, inominável, inclassificável, sutil e singelo como só o nascer e o morrer do sol sabem ser.

Crer para salvar aquilo que quase matei em mim, o que sempre fui. Para continuar a ser e a caminhar. Crer para retomar a busca do amor que se metamorfoseia em pessoa, carne, ossos e alma.

É crença no amor que vem com a primavera, depois de curtos outonos e invernos longos.

Hoje em diante: do amor fazer armadura para os dias de luta, chuva para as tardes quentes, abrigo para as noites sem lua. E o mais importante: do amor fazer estrada que, não importando onde se cruza ou quando se bifurca, sempre leva ao mesmo fim.


(crédito da imagem:  "Medianeras: Buenos Aires en la era del amor virtual". Extraído de: http://www.popscreen.com/v/6ntEL/teaser-medianeras)