domingo, 19 de maio de 2013

Apropriação Indébita ou Sobre os ombros de Drummond

Sempre que lhe faltar as palavras, diz o onisciente narrador em mim, recorra aos versos de Drummond. Em um deles estará escrito exatamente o que quer dizer.


Os Ombros Suportam o Mundo
Carlos Drummond de Andrade


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teu ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(in Sentimento do Mundo)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Cortina Nova

Se voltar desejos
ou se eles foram mesmo
lembre da nossa música

Se lembrar dos tempos
dos nossos momentos
Lembre da nossa música
(Música - Vanessa da Mata)



Era feita em duas camadas, uma de linho, em branco maculado, e a outra em seda rústica, mais cândida. O vento roçava-lhe todos os dias, aos primeiros olhares do sol ou ao dormir da tarde. Sua alvura impura completava a harmonia do ambiente, contrastando com a madeira escura do chão e tornando ainda mais suave a maciez bege das paredes.
Nos primeiros dias ouviu-se apenas o som árcade dos pássaros. E ondas de uma represa nos arredores. Assim: o vento abria-lhe e os sons entravam, como que a inundar a sala. Bem-te-vis, sabiás, não se sabia ao certo, e a água, evocando o mar distante.
Então vieram os acordes da Moonlight Sonata, que permaneceram até o fim. E também ecoavam alguns de Wagner, o romântico. E outros. Já os pássaros e o mar haviam passado. Os novos sons escondiam-se nos livros do escritório, entre os mantimentos do armário, em mangas de camisa no varal. Dominaram a casa por  longo tempo, confirmando a sua potência e beleza.
Até que o silêncio fez ouvir-se. E não seria a única vez. O vento soprava, as cortinas se abriam e o mundo interior quietava-se. Tudo era  um nada silencioso, quase mortífero. Mesmo a sonata beethovenniana prolongava-se no vazio entre um e outro movimento. Os móveis funcionavam como caixas acústicas a reproduzir o vazio que adentrava a janela.
A chuva rompia por vezes o silêncio. Bátegas amedrontavam as janelas. A tempestade ruidosa apegava-se aos eletrodomésticos, mesmo quando o sol brilhava intensamente lá fora. E um vozerio, em dissonância com a estrondosa água caindo, se apresentou, comprometendo a harmonia até então, e contrária à lógica, inabalada da casa.
Foi preciso remover as cortinas e substituí-las por novas. Num primeiro momento fez-se o silêncio, mas não o mesmo de antes: este era embrionário. E, após, quando as removeram de seu suporte de carvalho, milhares de sons escorregaram por suas camadas: pedaços de chuva, adágios, palavras soltas, pássaros - bem-te-vis, sabiás, ou outros - e o som do mar, ainda distante.

domingo, 7 de abril de 2013

frame by frame

Cada enquadramento, captado na ingenuidade dos momentos, revela as verdades possíveis. São eles, os momentos, que contam o que muitas vezes ignoramos, ou preferimos ignorar. E só quem reparar na delicada relação presença/ausência saberá compreender as estórias.

Supercloses e detalhes

O tempo suspendeu
-se. Congelou
(partículas de água no frio intenso).
O gesto ficou por terminar,
mão no rosto,
polegar sobre os olhos
recolhendo
uma
lágrima. E o soluço,
inacabado.
Os pratos sobre a mesa,
a comida sobre os pratos:
tudo imóvel, tudo

em pênsil.
À espera: a faca de pão,
a rede da varanda,
o tapete
os quadros,
o choro e a mamadeira.
Os móveis e as viagens.
O desejo.
Suspenso na atmosfera
inefável
do futuro.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Brilho eterno de uma mente sem lembranças em umas poucas palavras


Às vezes o fim estava no início, mas não nos damos conta... Às vezes o recomeço está no fim e igualmente não percebemos.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Deus seja louvado

Na floresta amazônica, a milhares de quilômetros daqui (daqui sendo um qualquer lugar confortável de uma metrópole como SP), uma menina vende seu corpo a um motorista de caminhão: R$20,00. Em outro ponto do país, numa praia em Natal por exemplo, um jovem da classe média gaúcha gasta R$500,00 em ecstasy e outras substâncias para consumir com seus colegas, em férias na cidade. Na mesma região, em Salvador, cobra-se R$  5,00 para se visitar a Igreja de São Francisco, enquanto a baiana pede R$3,00 ao fazer pose para uma foto. As escolas particulares mineiras arrecadam das elites locais em torno de R$1000,00 por cabeça para garantir que os filhos delas recebam boa educação e possam perpetuar  as estruturas sociais. No Rio de Janeiro, um moleque do morro vende a um playboy da zona sul três trouxinhas de maconha por R$5,00 cada; o mesmo playboy também leva 3gr de cocaína por R$60,00. No Guarujá, em SP, um dono de restaurante fica injuriado por conta da diferença de  R$7,00 na conta de um universitário.
Poderia-se parar por aqui, mas vamos um pouco mais fundo. A menina foi vendida pelos próprios pais a um cafetão da região; agora, sem estudar, ela abre a boca e as pernas para receber homens imundos e sem escrúpulos; um dos jovens que consumiu ecstasy na praia já havia fumado um baseado e bebido todas e acaba de ter uma parada cardíaca; a baiana torna sua imagem um produto e vende-se feliz pouco se importando com os dilemas morais por trás do ato; os jovens estudantes das escolas mineiras ocuparão as vagas das universidades públicas, deixando à imensa maioria da população - os pobres - as vagas (pagas) nas fracas instituições de ensino superior privadas; o moleque do morro pega uma quantia maior do que lhe cabe no tráfico, e acaba perdendo a vida, enquanto o playboy comemora com os seus na noite carioca; o universitário, de 22 anos apenas, é assassinado a facadas e o autor do crime foge com outros envolvidos. E a igreja de São Francisco, casa de deus para alguns, arrecada seus quinhões enquanto a miséria corre solta, pelas valas, como a urina dos foliões.

Enquanto isso, o escritor intriga-se com uma questão: por que os ateus e agnósticos, ou melhor, por que os ateus e agnósticos concordam em tirar a frase das cédulas de real?