Crer no ser humano (fé, palavra emprestada da religião, sem outra utilidade que não a de temperar a vida a gosto), mas não na humanidade
ou
Apostar na humanidade (razão, palavra de reverberações filosóficas que se acha GPS útil para trilhar estradas desconhecidas), mas não no ser humano.
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
terça-feira, 23 de agosto de 2016
quarta-feira, 25 de maio de 2016
Conto escolar nº 02 ou "atividade"
Leia abaixo um trecho da estória de Os
cães que ladram, de J. Sar-Amargus; em seguida, faça o que se pede:
"(...)
Para se montar uma cantina em
escola é necessário abrir processo de licitação e respeitar a livre concorrência,
como preconiza as leis do Estado a que alguns chamam Burguês, outros, julgados
menos esclarecidos sob a ótica dos primeiros, preferem dizer Estado Democrático,
se falta a este ou aquele algum teto, bom emprego ou bons estudos, ou mesmo artigos
de primeira necessidade, um prato de arroz e feijão, um pão com café, deve-se
culpar o sujeito que não se esforçou o bastante e não fez por merecer. Mas a
gente tem uma cantineira amiga da escola, aqui da comunidade, conhecida dos
alunos, falou uma professora. Esquecemos de dizer que a cena acontece em uma
escola, especificamente em uma sala de professores, lugar da gente esclarecida,
Castelo dos Nobres no Limbo de Dante, cuja luz emana do conhecimento de quem lá
habita. A mesa onde os doutos se encontram, porém, não é circular, e fracamente
iluminada por uma lâmpada fluorescente de par queimado, detalhe pouco
importante ao momento preciso da narrativa, só nos dificulta a descrição destes
que estão sentados, uma mulher já de meia idade, um homem de vinte e tantos,
outra mulher, um homem de grande barriga, outro homem e outra mulher, as
sombras do ambiente não nos permite ir além, voltemos, portanto, à conversa. É,
e a moça está ajudando na reforma do piso da cozinha dos professores, Até
armário mandou fazer, Mas isso não é ilegal, Veja bem, eu só estou contando o
que ela já fez por nós, Lembra de como estava o piso da cozinha, Os armários
são de parede, vai sobrar espaço naquele cubo apertado, E depois o processo
está aberto, vão ter outras propostas, se vocês acharem melhor as outras,
Outras não, a gente já conhece essa, é arriscado colocar quem não entende dos
paranauê, E o que os alunos ganham com isso, Você viu o preço dos lanches, as
promoções, Vamos até estender os intervalos para dar tempo de todos comprarem,
Mas a gente vai poder continuar escolhendo os lanches primeiro, Precisamos ver
como organizar isso, porque não fica legal pra nossa imagem cortar fila de
aluno, deixemos a discussão de lado, claro está que a categoria saberá
encontrar a solução, jamais esqueçamos nós, incultos, que estes são os seres
que trazem a luz aos alunos, não são como as mães, que os filhos entrega à luz, os dá como se diz
no corrente, gesto menos adequado ao mundo do mercado, onde nada se ganha, tudo
se compra, tudo se vende, tudo se conquista por esforço e mérito, é o que
ensina a escola, os esclarecidos que as gere e digere. Disso sabemos pouco,
pouco deve saber um narrador que usa por três vezes as palavras luz e esclarecido,
quarta agora, parece que não aprendeu nada (...)."
1.) reorganize o excerto e transforme o diálogo presente nele em discurso
direto, dando voz às personagens e usando os sinais de pontuação adequados
(aspas ou travessão, interrogação, exclamação, dois pontos, ponto final);
2.) Reescreva a história começando da seguinte forma:
"Para se executar algumas
obras públicas, é necessário licitação e abertura à livre concorrência..."
ORIENTAÇÕES
- a atividade é
individual;
- faça as alterações que
julgar necessárias;
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
man in festa
Talvez um maço só não baste. A casa é o pior lugar pra se esconder nestas horas, e a rua toda cheia de vazios deixa de ser caminho e passa a ser destino. Mesmo com o perigo do gás. Semana passada estouraram tanta bomba na Paulista que ela, uns instantes, virou nuvem. A gente nunca imaginou que andar nas nuvens seria assim. Sufoco.
Só o coração respira. Por isso não entendo como aquele mato crescendo na rachadura do viaduto resiste. Ali, no sentido Rebouças. Tem outros também. Tentei cortar uma vez - bastou um fim de semana e estava tudo igual. Não desisti: cortei outras tantas. Agora só tento evitar que ele cresça. Tem outros. Tem outros e o medo é que eles sufoquem como o gás. É perigoso porque não tem barulho. A bomba já bota a gente em sobressalto quando explode, todo mundo em disparada. O gás é depois, junto com o desejo de não ter olhos e garganta. Mas, como dizem, desejo é
Tem uns que são do tamanho de arbusto. Um famoso é o da ponte Cidade Universitária. Se atreveu a ficar bonito, ninguém mais tem coragem de cortar. Devem ter outros tão bonitos quanto. Só que: se não forem? Se crescem desgrenhados forçando rachaduras espaços boca nariz olhos? Se chegam ao coração?
Fumo é pra lidar com a ansiedade. E o medo. Deixei de lado o assassinato dos matos. Vai que - . E como meu destino não será tão cedo a casa, o cigarro ajuda a pastar o tempo. Acendo, olhos nos trilhos elevados do metrô. Mais um na estação Vila das Belezas.
Só o coração respira. Por isso não entendo como aquele mato crescendo na rachadura do viaduto resiste. Ali, no sentido Rebouças. Tem outros também. Tentei cortar uma vez - bastou um fim de semana e estava tudo igual. Não desisti: cortei outras tantas. Agora só tento evitar que ele cresça. Tem outros. Tem outros e o medo é que eles sufoquem como o gás. É perigoso porque não tem barulho. A bomba já bota a gente em sobressalto quando explode, todo mundo em disparada. O gás é depois, junto com o desejo de não ter olhos e garganta. Mas, como dizem, desejo é
Tem uns que são do tamanho de arbusto. Um famoso é o da ponte Cidade Universitária. Se atreveu a ficar bonito, ninguém mais tem coragem de cortar. Devem ter outros tão bonitos quanto. Só que: se não forem? Se crescem desgrenhados forçando rachaduras espaços boca nariz olhos? Se chegam ao coração?
Fumo é pra lidar com a ansiedade. E o medo. Deixei de lado o assassinato dos matos. Vai que - . E como meu destino não será tão cedo a casa, o cigarro ajuda a pastar o tempo. Acendo, olhos nos trilhos elevados do metrô. Mais um na estação Vila das Belezas.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Anedota reflexiva ou direito à tristeza
(contém spoiler de Diverta Mente [Inside Out, 2015] e da minha vida)
É um filme de criança, mas eu chorei quando, em Divertida Mente, o Amigo Imaginário fica no depósito de lembranças descartadas para que Alegria consiga subir, achar Tristeza e retornar à Torre de Comando da cabeça de Riley. Uma criancinha do meu lado, com seus, sei lá, quatro anos, adivinhando meus soluços, perguntou baixinho: "o seu também caiu lá?". Não sei se viu meu sorriso frouxo e o leve aceno de cabeça, mas a garotinha, cara de quem receia perder algo, enroscou-se no próprio peito, como se abraçasse alguém.
A verdade é que não lembro de ter tido amigos imaginários - se houveram, estão no limbo das lembranças que não mais acesso. E acho importante, talvez a parte mais importante do filme da Disney-Pixar, a reflexão sobre o papel da tristeza na formação da nossa personalidade. Sobretudo nos corridos dias de hoje, em que a tônica do ser feliz a todo e qualquer custo é a bandeira que muitos carregam. Interessante também é o fato de ser um filme para crianças que propõe tal reflexão. Talvez os pais, tios (como é o meu caso) e adultos em geral tenham sido pegos de surpresa pela mensagem nada implícita do filme. Sim: só a Alegria no comando faz a gente fazer burrada. Sim: Tristeza é importante porque nos dá clareza quanto ao que fazer. Sim: Tristeza e Alegria não se anulam. Tudo talvez muito óbvio mas, como minha irmã adora dizer, o óbvio precisa ser dito. Entendê-lo faz parte do processo de amadurecimento.
É um filme de criança, mas eu chorei quando, em Divertida Mente, o Amigo Imaginário fica no depósito de lembranças descartadas para que Alegria consiga subir, achar Tristeza e retornar à Torre de Comando da cabeça de Riley. Uma criancinha do meu lado, com seus, sei lá, quatro anos, adivinhando meus soluços, perguntou baixinho: "o seu também caiu lá?". Não sei se viu meu sorriso frouxo e o leve aceno de cabeça, mas a garotinha, cara de quem receia perder algo, enroscou-se no próprio peito, como se abraçasse alguém.
A verdade é que não lembro de ter tido amigos imaginários - se houveram, estão no limbo das lembranças que não mais acesso. E acho importante, talvez a parte mais importante do filme da Disney-Pixar, a reflexão sobre o papel da tristeza na formação da nossa personalidade. Sobretudo nos corridos dias de hoje, em que a tônica do ser feliz a todo e qualquer custo é a bandeira que muitos carregam. Interessante também é o fato de ser um filme para crianças que propõe tal reflexão. Talvez os pais, tios (como é o meu caso) e adultos em geral tenham sido pegos de surpresa pela mensagem nada implícita do filme. Sim: só a Alegria no comando faz a gente fazer burrada. Sim: Tristeza é importante porque nos dá clareza quanto ao que fazer. Sim: Tristeza e Alegria não se anulam. Tudo talvez muito óbvio mas, como minha irmã adora dizer, o óbvio precisa ser dito. Entendê-lo faz parte do processo de amadurecimento.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
Todavia, a vida
A poesia de Michele Santos já esteve em sala de aula comigo, sem eu a perceber. Em 2013, ano ímpar que marcou o início do retorno do meu Saturno, sua voz aguçava os ouvidos dos meus estudantes em uma aula que preparei sobre o cenário dos saraus nas periferias de SP. Mas foram os cavalos que atraíram meus olhos às suas palavras:
"Como se doma a alma
de quem carrega cavalos
no peito?"
Sabe aquelas coisas que a gente ouve e fica, durante muito muito tempo, reverberando no de-dentro da gente? Pois. E não foi diferente com seu primeiro livro, Toda via,, lançado há pouco menos de um mês. Já o li na sequência e fora dela, no trabalho e em casa, em voz alta para amigos e para mim mesmo. E não há nada que o faça calar no aqui dentro. Ainda bem, porque poesia boa tem que permanecer na gente.
Ler Toda via, é um esforço de sentidos. Está além de olhos (como fala Janaina Moitinho no prefácio) e ouvidos (alguns me dóem na pele ("Cão", "Othelo's")). Seus poemas pedem mais que um raciocínio cerebral, obrigam a gente a ler com o coração - e ler com o coração é por o músculo em exposição, vulnerável às adagas da dúvida, à mercê de um atropelamento na BR-316. Mas o risco vale - e muito - a pena.
O livro nasce com uma madureza pouco comum às primeiras obras. Isto mostra o empenho e dedicação ao ofício de poeta de quem traz a palavra na pele. Tem um quê de um versinho do Bandeira ("a vida inteira que podia ter sido e que não foi"), mas, creio eu, muito mais daquilo que pensa Hilda Hilst acerca da poesia:
"[o poema] é como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida. Um soco certamente te acorda e, se for em cheio, faz cair a tua máscara, essa frívola, repugnante, empolada máscara que tentamos manter para atrair ou assustar"
Acerta a gente em cheio a poesia dessa moça. Serve como as melhores roupas, as melhores carapuças. Flui em nós espontânea como parte da própria vida. Grande estreia. Dada aos bifes, só nos resta partilhar da mesma entrega. Demo-nos também.
final de dezembro de 2015
sábado, 19 de dezembro de 2015
prenúncio
Manso, como um sobrenome do oriente, você veio. Talvez a trilha fosse outra, talvez o calor menos ameno -
- eu estava armado. Escudo em mãos. É que a gente vai, sem perceber, desenhando ameaças em toda esquina. Antes fosse apenas o escudo, mas a gente vai, sem perceber, andando de um jeito torto, pronto pra surpreender -
E ataco querendo não querendo. A gente aprende a usar o ataque como defesa. Desculpa. Eu, de tanto sentir o azedo das palavras apodrecidas pelo tempo, sei que desculpar-se não vai lavrar o chão. O cravo - ou outra flor - não vai brotar. Não mais.
Você vai. Sorte que tenha a inteligência do pássaro que sabe a hora de buscar o verão. Eu, árvore sem nome (os nomes não alteram o perfume das acácias), mantenho firme o coração de pedra-pomes. Sentindo as folhas caírem. As palavras secarem. Mais uma vez a gente prende o grito e a vontade e depois transforma tudo em cena de filme de ação ou poema barroco.
E dorme, sem fim.
- eu estava armado. Escudo em mãos. É que a gente vai, sem perceber, desenhando ameaças em toda esquina. Antes fosse apenas o escudo, mas a gente vai, sem perceber, andando de um jeito torto, pronto pra surpreender -
E ataco querendo não querendo. A gente aprende a usar o ataque como defesa. Desculpa. Eu, de tanto sentir o azedo das palavras apodrecidas pelo tempo, sei que desculpar-se não vai lavrar o chão. O cravo - ou outra flor - não vai brotar. Não mais.
Você vai. Sorte que tenha a inteligência do pássaro que sabe a hora de buscar o verão. Eu, árvore sem nome (os nomes não alteram o perfume das acácias), mantenho firme o coração de pedra-pomes. Sentindo as folhas caírem. As palavras secarem. Mais uma vez a gente prende o grito e a vontade e depois transforma tudo em cena de filme de ação ou poema barroco.
E dorme, sem fim.
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