segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

votos de fim de ano


Tá, é final de ano e todo mundo espera uma palavra de acalanto, um voto de prosperidade, uma esperançazinha para o ano que vai começar.

Infelizmente não posso desejar boas festas, feliz ano novo, sorte-amor-felicidade a todo mundo. Não é isso que o Mundo precisa. Desejarei, em vez, que certos imbecis sejam cada vez mais infelizes em seus comentários  e ações preconceituosas, de natureza homofóbica, machista ou racista. E desejarei também que mais e mais pessoas fiquem infelizes quando ouvirem esses comentários. E que, quando a infelicidade for geral, possamos enfim extirpá-la como se corta um membro gangrenado.

Desejarei força e inteligência para as lutas, as diárias e as épicas. Para as lutas que se lutam em conjunto, não para aquelas em que se faz para benefícios individuais. Para estas desejo sorte. Que a sorte fique para os bobos que acham que podem mudar a própria vida com as doses de alienação as quais estão viciados. 

Desejarei o fim do amor. Não de qualquer amor, mas deste egoísta, que pensa mais em si e nos seus. Que esse amor possa ser substituído por outro, limpo de vontades divinas que selecionam alguns e condenam tantos. Um amor que lute e enfrente todo e qualquer ato desumanizador. Que combata os discursos e ações desumanizadoras, de origem religiosa, política ou (o pior mal) político-religiosa.

Desejarei o fim da esperança, esta que nos faz ficar sentados à espera de milagres. Que o fim da esperança possa gerar o acordar do espírito, do corpo, do humano. E que, não havendo mais a crença na existência de um mundo melhor para além, as pessoas comecem a construí-lo no aqui e agora.

Desejarei coragem para pegar em armas sempre que necessário. Não as armas de fogo (mas não as tirem do horizonte, porque podem ser necessárias), mas  as palavras. As canções. As pedras. E que munidos de um arsenal potente possamos destruir tudo aquilo que barra a construção de um novo mundo.

Que não nos enganemos, enfim. Há muito que fazer antes da completa prosperidade e bonança. Muito sangue, literal e figurado, a correr. E é preciso estar consciente, de olhos abertos, para vencer.

Estes votos são os meus.


sábado, 17 de novembro de 2012

Sobre identidade ou Quando Calle 13 passou por aqui

(para minha amiga Vany, latino-americana apaixonada)



Amigo leitor: ouça bem a música que posto. Pode não parecer, mas ela fala muito de você, também. Ela se chama "Latinoamérica" e é de uma banda porto-riquenha chamada Calle 13. Eu, quando a ouvi pela primeira vez, senti uma vergonha estranha. Música de uma banda de um país que nem país é (Porto Rico é território estadunidense), cantada em um espanhol que consigo entender, mas sobretudo com um trecho em bom português na voz de Maria Rita. E de onde vem a vergonha?

Desconsiderando a música do Belchior, é muito difícil ver um brasileiro se reconhecer como pertencente a uma coisa chamada América Latina. Ou melhor: reconhecer-se como latino-americano. Somos brasileiros, fomos "descobertos" por portugueses e falamos a língua que Camões usou. A América Latina é algo como uma simples vizinha, com quem temos, país do futuro que somos, os nossos prepotentes interesses. Parece que o pensamento que permeia o imaginário brasileiro não nos vê como um país cuja história é semelhante ao dos países vizinhos nossos. Antes, somos ávidos em afirmar nossas diferenças.

Mas não é bem assim. E o pior, que é de onde vem a vergonha, nossos "vizinhos" sabem disso. Sabem, melhor do que nós, que a nossa história é a mesma, que os algozes foram os mesmos, revestidos de diferentes nacionalidades, mas com os mesmos objetivos e praticando as mesmas ações. Sinto vergonha em ter passado muito tempo sem me pensar como "apenas um rapaz, latino-americano". Sinto vergonha em saber que os meus hermanos me reconhecem como tal, mas que nunca me dei conta disso.

Os livros de história não falam. A história oficial não fala. Mas a terra sabe. Se você, leitor, ouvi-la, vai achar no mínimo revoltante o comentário do sr. Alckmin neste vídeo.

Latinoamérica nos ensina algo muito além do que as palavras podem dizer. Mas é preciso deixar o coração entrar no mesmo compasso desta canção.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Texto-Esboço para os Oito Anos.

(para Ela, sempre)

Era um filme que veríamos. Um filme que foi se revelando nas longas conversas de telefone, e trocas de mensagens em que se abreviavam as palavras para se conseguir dizer mais. Era um filme para selar o fim do que sequer havia começado. Era assim mesmo: antes do começo, o fim.

Sabe-se lá que mágicas o cinema faz! Uma noturna luz disfarçava a tarde lá fora. Domingo. E nós, ali, a ver o filme prometido. Desconhecíamos os caminhos do amor, que conduziam os braços aos abraços apaixonados, os lábios ao ávido beijo. Eis que o filme aproximava-nos: sentar lado a lado, oferecer um colo, aceitar um afago. A película, na verdade, era a água que regava o campo semeado com palavras. Sempre as palavras. Poderiam brotar a qualquer momento, tornarem-se reais e terríveis, converterem-se em atos, ações e, portanto, não terem mais volta.

A tarde entregava-se aos jogos de crianças, às conversas de portão e aos goles de bar. Nós, à semi-obscuridade, à vontade de começar o que já havia acabado. E foi assim que as palavras, muitas delas abreviadas, outras prolongadas em horas que adentravam madrugadas, brotaram. Um gesto, um braço, um abraço, um beijo, uma explosão. O fim.

Daí então, o início.

sábado, 22 de setembro de 2012

Aprendendo com o Dráuzio

Ouvi o Varella dizer que o corpo humano é a máquina mais perfeita que a natureza criou. E é verdade. Agora, não sei se a seguinte sentença é válida: "o ser humano é uma máquina perfeita". Também deve ser. Só um ser perfeito para ter criado deus, a resposta para todas as perguntas.

A criação de Adão - Michelangelo, Capela Sistina, Vaticano

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Três mesmas estórias e um fim


(estória para se ouvir ao som de Todos os Olhos, do Tom Zé)

             Ele foi pego. Três tiros perfuraram sua cabeça: no centro da testa, abaixo do olho direito e na boca. Um tiro na glote. Cinco tiros entraram pelo tronco: no esquelético peito, lado esquerdo e direito, na boca do estômago, dois na barriga magra. Quatro tiros nos membros inferiores: na coxa esquerda, joelho esquerdo, tornozelo direito e pé esquerdo, destroçando o tênis da última moda. A camiseta branca abaixo da blusa preta estava empapada de um sangue negro, viscoso, que corria pelos buracos abertos e formava uma poça escura ao redor da massa inerte. A calça de moletom amarelo perdera sua cor primeira e desaparecia no meio do lago escuro, absorvendo-o como se quisesse devolver ao antigo dono o líquido derramado. Não havia por perto nenhuma garrafa de leite estilhaçada. Se o peito ainda arfava, tentando atrair para si as últimas rajadas de ar, e se a boca ainda guardava um gosto macio e cheiroso, ninguém pôde constatar, pois a confusão ao redor crescia, saindo da calçada e ocupando duas faixas da avenida. Pessoas tentavam entender o que se passara. Outros pareciam estar contentes. O ônibus –  antes com todos os assentos, todo o corredor e vãos em que pudesse se instalar um corpo humano ocupados – jazia vazio, com as luzes inutilmente acesas. Todos estavam em volta da massa que desaparecia em sangue e sombras.
            Eles foram cumprimentados. Um, responsável por um tiro no olho, na boca, três no tronco (peito direito e esquerdo e boca do estômago), um no membro inferior; o outro, por três tiros nas pernas, dois na barriga e um na glote; o terceiro, por fim, dera o tiro na testa, o que fez o sangue espirrar e manchar a aba branca do boné que escondia o rosto alvo do corpo violado. Eles riam, aceitavam os aplausos. Carregavam mochilas nas costas. Através de uma delas, ligeiramente aberta – pertencente ao responsável pelo tiro na testa –, se via pedaço de um tecido uniformemente cinza. Alguém falava sobre a coragem dos distintos moços. Ouviu-se um agradecer a deus por estarem naquele momento no ônibus, voltando para casa depois de um dia de serviço árduo, o uniforme provavelmente na mochila que carregavam, o instrumento de trabalho, porém, ainda na cintura. Sorte, disseram, pois deu tempo de descer do ônibus e acertar a perna, fazendo o corpo tombar na calçada, próximo do asfalto. Depois foi só correr à caça ferida e terminar o serviço. Pena que aquele outro já se via longe, sem chance de ser pego. Estavam em volta do corpo, exibiam suas armas salvadoras, não viram nenhuma garrafa de leite estilhaçada, apenas a mancha negra que crescia e sujava a calçada recém reformada.
            Ela já estava aliviada. Quando ouvira o barulho do ônibus se aproximando, não exitara ao atirar-se em sua frente, pois julgava ser melhor morrer daquele jeito do que pelas mãos ásperas e asquerosas daqueles dois sujeitos pretos, eram pretos?, sempre são pretos. Sorte ou azar, o ônibus parou em cima de seu corpo, sem lhe causar nenhum mal. O susto, provavelmente ocasionado pela presença quase física da morte, a fez parar, o que permitiu que os elementos a alcançassem. Arrastaram-na, disse, para a viela sem iluminação ali perto, levantaram sua saia branca, rodada. Um a prendia pelo pescoço, quase lhe privando a entrada de ar. O outro rasgou a calcinha e, ferido com um chute da perna que se debatia, revidou com um tapa violento na face direita umedecida de lágrimas desesperadas e um soco na boca do estômago frágil. Não fosse o indivíduo a segurá-la, seu corpo tombaria indefeso no chão. Sentiu quando sua blusa foi escancarada e seus seios apertados com violência e lambidos por uma boca selvagem e fétida e nojenta. Mas o ônibus havia parado e algumas pessoas desciam. E ela se viu salva quando eles a soltaram e correram para fora do beco escuro. Um atirou-se no meio dos veículos que passavam com velocidade reduzida, pois o coletivo parado em local inesperado obrigava-os a andar com cautela. O outro, com medo de ser pego por um dos carros que passavam, correu pela margem da avenida. Ela foi amparada por outras mulheres compadecidas; viu que uma multidão corria pela calçada, mais para frente. Ouviu um som áspero, monocorde, rápido. A este se sucederam doze outros baques iguais. Pediu para ser levada ao local dos tiros. Encontrou apenas um corpo no meio-fio, o sangue escorrendo para o asfalto, sem nenhuma garrafa de leite estilhaçada. Também cumprimentou aqueles que fizeram o que ela não poderia ter feito. Transeuntes se juntaram a multidão do coletivo e já ocupavam dois terços da avenida. Os carros passavam lentamente e demoravam ainda mais para entender o que havia ocorrido.
            Ali perto, um motorista discutia os males do trânsito com o seu patrão, sentado no banco de trás, enquanto observavam descontraidamente a movimentação da qual se aproximavam.

(conto perdido, provavelmente de 2008)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Estórias sem fim

Era uma vez em 2003. Todos juntos porque só assim que sabíamos viver. Todos juntos, mas cada um em território conhecido, delimitando fronteiras com os mais próximos. Todos juntos, e mesmo assim uma áurea cinza se espalhava, nublando os caminhos que poderiam ligar uns aos outros. Juntos e a mesa acolhedora modificava sua geografia para receber aqueles que chegavam atrasados.

As mãos de Marininha tamborilavam um copo meio cheio de refrigerante de laranja. Seu riso grande procurava disfarçar o nervosismo com a chegada de Heliodora, nova namorada de seu novo amor Gloomys. Esther pedia a opinião de Marininha para tudo: suco ou refri, coca ou fanta, mussarela ou catupiry. E insistia para a amiga não pensar mais em Gloomys. Não merecia seu afeto depois do que fez. Marininha entrava no jogo e tentava se distrair. Dizia que Antônio não tirava os olhos da amiga.

Gloomys beijou a radiante Heliodora com o entusiasmo de quem muito esperou. Agora sim o coração aliviara-se, o ar carregado ficaria um pouco mais suportável; a presença indesejável seria sombra à mesa, ainda que vez por outra ofuscasse o sol. Não ignorava que em algum momento teria que se resolver com o J. H., mas achava melhor deixar as águas correrem, e com elas a raiva que sentia.

O J.H. aproveitou a recém chegada e a reorganização dos lugares para sentar-se ao lado do Costinha, o melhor de nós. E, juntos, riam de tudo: do suco aguado de abacaxi, da cara bufante de Gloomys, do chapéu de viking de Heliodora. E riam sobretudo dos presentes dados a um dos aniversariantes, o Antônio: revistas masculinas e uma caricatura sua com orelhas enormes. Nem sempre riam. Por vezes o J.H. apoiava as mãos fechadas sobre a mesa, olhava em volta e retomava a conversa com o Costinha sobre o recém término de namoro de sua irmã, e da postura agressiva de Gloomys por conta disso.

Os risos de Costinha e J.H. atraíram o de Marininha, carente de um afeto que eu gostaria de dar. Conversavam sobre qualquer assunto e, naquele riso fácil, fundavam um arquipélago fechado a estranhos. Diferente de LaRossa, que deixou-se isolada e triste. Preferia não dar sinais de estar aberta a relações e a risadas. Seu olhar percorria cada um da grande mesa, como se buscasse ou questionasse, sem nada encontrar. O Antônio tentava puxá-la para a conversa, sem muito sucesso. LaRossa trocava palavras, fazia comentários simples e voltava ao seu mundo particular.

Heliodora ganhou apenas presentes de Gloomys. Era nova no grupo, trazida pelo namorado, e por isso os presentes acharam por bem ficar apenas no clássico "parabéns" e "felicidades". Ela, sempre esfuziante, recebeu os abraços. Mas pouco fez para tentar enturmar-se. Gloomys parecia enfurecido e ela sentia-se na condição de responsável por acalmá-lo. Sabia que o problema era a presença de J.H., a quem não lhe pareceu má pessoa. Não poderia fazer nada além de encher o namorado de carícias. Pelas apresentações, soube que a irmã de J.H não viera, o que já era positivo. Acreditava quando Gloomys dizia não sentir mais nada por ela, no entanto é sempre incômodo compartilhar o mesmo espaço, o mesmo ambiente com alguém que meses atrás estava em nossos braços.

Flashes dos presentes. Dali a pouco todos iriam embora com suas dores e suas vidas por começar. O Costinha terminara as piadas e as risadas. Tomara o refrigerante de laranja que Marininha acabou por abandonar. Já pareciam amigos de longa data. Esther, que fugia dos olhares fictícios de Antônio, jogava as brincadeiras de Costinha, Marininha e J.H. O melhor de nós chamou a atenção para o horário, estava no limite do tempo que sua mãe havia estipulado.

LaRossa já estivera em meus braços. Seu silêncio na mesa talvez se explique. Antônio continuava o centro das atenções, ou o ponto de fuga. Sabia que todos estavam ali não só pelo seu aniversário, mas pelo dia em si, um dia vinte no meio das férias de meio do ano. Estava feliz por isso, por esse companheirismo que unia dez mesas de bar. Todos, que em algum momento serviram de molde às suas estórias, estavam juntos. Pela última vez.

O Banana iria enlouquecer e sumir. A Tatu e o cobrador terminariam, voltariam, teriam um filho e terminariam de novo. A Esther casaria com um bombeiro. O Camelo iria trabalhar para o Hyatt Hotel. O Dinho seria promotor da Positivo. A Tolie iria inventar estórias que nos afastariam ainda mais. O Medusa e eu estudaríamos juntos. E os outros?

Todos voltavam do último passeio da adolescência. Ônibus errado, cada um ficando pelo caminho. À meia-noite uma canção ecoou nas ruas pela última vez. E depois? Depois,

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Losing My Religion ou apontamentos em rascunho



Há onze anos que essa música, de alguma forma, me fala verdades sobre mim. Desafia as minhas convicções. Meus medos. Me escreve em sons. A questão que se coloca é: sou, então, o mesmo de onze anos atrás? Talvez alguns erros possam se repetir: sobras de um passado mal resolvido?


Hoje só me dou perguntas.