Deriva:
não estar;
ser.
sexta-feira, 14 de julho de 2017
domingo, 2 de julho de 2017
Aguar o tempo
O silêncio não é céu azul em manhã seca de inverno.
O silêncio é nuvem branca.
O silêncio úmido vaga alheio aos que debaixo olham.
E olhamos.
Com os mesmos olhos imaturos da criança, olhamos.
A gente vê o algodão branco e desenha neles.
Como em folhas - nuvenspelho.
Queira o bom deus que o Climatempo esteja certo e caia a chuva no fim da tarde.
O silêncio é nuvem branca.
O silêncio úmido vaga alheio aos que debaixo olham.
E olhamos.
Com os mesmos olhos imaturos da criança, olhamos.
A gente vê o algodão branco e desenha neles.
Como em folhas - nuvenspelho.
Queira o bom deus que o Climatempo esteja certo e caia a chuva no fim da tarde.
sábado, 13 de maio de 2017
Teu silêncio
"Estou absolutamente cansado de literatura; só a mudez me faz companhia. Se ainda escrevo é porque nada mais tenho a fazer no mundo enquanto espero a morte. A procura da palavra no escuro."
In: A hora da estrela - Clarice Lispector
O eco que me rouba a madrugada. A voz nas cavernas da memória. O abraço que me prende à cama. O vazio da cama. O murmúrio do chuveiro. O azulejo frio. A roupa que me veste. O sapato amarelo que me guia. Bate como fome. Como a falta de fome. Como o amargo do café.
Acompanha-me como sombra. A canção que se repete. Um refrão clichê. Um vagão cheio de ninguém. O peso a menos na balança. Um peso a menos na carteira. Duas notas de cinquenta. O excesso de horas vadias. Anda como quem esqueceu pra onde vai. Corre nas aulas e nas salas de cinema.
O meu grito. A palavra que me corta. Que me sobe à garganta. A prosa mal escrita. O verso que não sai. Um poema de João Cabral. O Gigante Adamastor. A solidão de terno azul. O estalo do gatilho. Perfura as noites e os dias e os meses. Incansável. Arrasta-se como lesma. O rastro de gosma da lesma. A busca. A espera. O vácuo.
Uma resposta.
segunda-feira, 20 de março de 2017
Mergulho
Vertigem é o desejo da queda. É expectativa de beijar e unir-se ao asfalto. Mas não há arranha-céu: é o chão que some sob a distração dos meus passos na rua deserta em fim de domingo. Quem sabe o fluido que brota dos rios escondidos da cidade. Quem sabe os dutos que se rompem diante da pressão atroz da água. Meu corpo imerge e a pele se retesa. A pele, sim: estica-se e crispa-se sob o frio pegajoso do Líquido. Mamilos e pelos rígidos, duros falos a menos de um segundo do gozo e, não menos de um segundo seguinte, amolecidos dormem estirados na carne. O cansaço. Penetra o Líquido na caça por poros abertos, buracos negros que engoliram a verdade do universo quando ele mal tinha nascido, o óvulo primordial na esperança da forma anterior à Forma. Ergo o olho. O universo é o céu sobre a abóbada e também é o buraco aberto no chão, uma boca na rua, um buraco arrombado no peito, uma boca na alma. Os poros arreganham-se, o Líquido se assanha até aos músculos. Agora sim: a rigidez contraída dos ombros, o trincar dos dentes, o bater de mãos pés coxas na ânsia da ideia natimorta, o resgate, a ânsia de vômito quando o Líquido lubrifica o pescoço sem chegar à boca, o nariz não comporta o cheiro abissal, toda a sorte de dejetos ali, o humano na sua forma mínima, o humano naquilo que ele próprio enjeitou, preteriu, o humano na sua verdade lodosa jorrada do corpo pelo cu, buraco do fim do mundo, dobre o tempo-e-espaço e é o fim-começo-fim de novo. O novo no fim, nos excrementos que boiam, a essência das coisas partidas, o café, o macarrão, a canela, o vinho, a memória liquefeita do amor, das ruas, da boca de lobo voraz engolindo as águas passadas, os direitos ejaculados no ralo e os buracos negros do corpo felando o passado, a sucção enfiando a bosta em cada poro, o engasgo quando o Líquido chega à boca, pedaços de história não esquecidos. O topo de mim, a cabeça seca na iminência de afundar, resistência sucumbindo ante a ânsia que ameaça expelir esboços de futuro. Não há chão. O fosso aberto, buraco sem fundo, fundo, fundo. O Líquido gruda na pele como porra aos pelos no contato com água quente. Nada. Sobre a superfície, nem vulto, voz, aceno de adeus. Silêncio. No buraco, grito. Mete-se então o Líquido grosso, espesso, boca adentro, goela abaixo, caminhos escuros dos meus avessos, do que restava intocado, sinto agora a intenção devassa do Líquido: encontrar saídas, fecundar o óvulo primígeno e fazer brotar outros três, treze, trezentos mil universos, cuspi-los poro a poro, e seguir, entranha-se em busca do buraco do fim do mundo, os caroços não olvidados como espermatozoides viajando no leite proteico, cuecas, bares, o longo caminho da madrugada, a reminiscência dos amor3s: o cu regurgita tudo uma vez mais.
terça-feira, 14 de março de 2017
click & flash
Meu futuro é um rolo de filme de 24 poses da Kodak, ainda virgem, esperando uma máquina analógica.
.
.
.
.
.
a máquina escangalhou.
.
.
.
.
.
a máquina escangalhou.
terça-feira, 15 de novembro de 2016
Apontamentos
Há quem diga, do amor, que ele é uma grande exclamação. Great!
Uns tantos afirmam de que se trata de uma interrogação. Será?
Tem gente que o prefere simples ponto final. Assim.
De minha parte, amor é reticências. Ao que parece...
[sobre obviedades, clichês e outras coisas ruins que se escreve sobre o amor.]
Uns tantos afirmam de que se trata de uma interrogação. Será?
Tem gente que o prefere simples ponto final. Assim.
De minha parte, amor é reticências. Ao que parece...
[sobre obviedades, clichês e outras coisas ruins que se escreve sobre o amor.]
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Crise filosófico-político-existencial Ou O que se escreve nos dias de Inferno Astral
Crer no ser humano (fé, palavra emprestada da religião, sem outra utilidade que não a de temperar a vida a gosto), mas não na humanidade
ou
Apostar na humanidade (razão, palavra de reverberações filosóficas que se acha GPS útil para trilhar estradas desconhecidas), mas não no ser humano.
ou
Apostar na humanidade (razão, palavra de reverberações filosóficas que se acha GPS útil para trilhar estradas desconhecidas), mas não no ser humano.
Assinar:
Postagens (Atom)