domingo, 24 de agosto de 2014

(sem título. da série "salão de festas da palavra")

pássaro vermelho que dança no céu
cantou em meu peito por toda a noite mal dormida.

suspeito que se inspira nos sonhos que me roubou.

Poética

não quero verso.
quero prosa corajosa que tente atar em linha única todas as pontas e os nós da poesia.

domingo, 17 de agosto de 2014

A Deriva

barquinho que agora vaga no mar calmo passou por tempestade que pôs medo até em monstros abissais, daqui pra cá, dali pr'além, sem poder voltar, longe de porto de píer de cais, noites afora, dias adentro, grafite elas, eles cinza, molhados todos de lágrimas água e sal, e segue, e sangue, e segue aqui ali além, não aquém, fosse ser vivo, o barquinho, seria toupeira em terremoto, mar turvo, tons de negro e gris, por um nada se agita, e a tempestade foi das grandes que nunca ninguém viu, só relatos, marinheiros que aumentam e inventam.
agora é calma. o céu, anil infinito. a água, um grande espelho azul-sólido e eterno. os ventos esqueceram-se de batalhar: tiram um descanso na manhã que acorda ainda sonolenta. o sol é grande e amarelo, e sobe no céu como quem não tem nada a fazer a não ser olhar minucioso a paisagem. é mar. por todos os lados: mar. até onde a vista desiste de alcançar. sem nem sonho de areia branca ou colorida falésia. nada se mexe sob e sobre a superfície líquida. nem o barquinho. principalmente ele. o ar quente e tenso parece morto. e seu corpo pesa. pesa e mais imobiliza. o sol continua a lenta escalada. e nem ainda é meio-dia.



sábado, 9 de agosto de 2014

Frio e flores

pro meu amigo, meu irmão, Alê

Ainda que meus olhos insistam em mostrar invernos, seu carinho faz-me florescer primaveras no peito.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

"Sertão: estes seus vazios" ou dos sentimentos traduzidos nas palavras dos Grandes (nada a declarar²)

"(...) Mudei meu coração de posto. E a viagem em nossa noite seguia. Purguei a passagem do medo: grande vão eu atravessava.

A tristeza. Aí, o Reinaldo, na paragem, veio para perto de mim. Por causa da minha tristeza, sei que de mim ele mais gostava. Sempre que estou entristecido, é que os outros gostam mais de mim, de minha companhia. Por que? Nunca falo queixa, de nada. Minha tristeza é uma volta em medida; mas minha alegria é forte demais. Eu atravessava no meio da tristeza, o Reinaldo veio. Ele bem-me-quis, aconselhou brincando: - "Riobaldo, puxa as orêlhas do teu jumento..." Mas amuado eu não estava. Respondi somente: - "Amigo..." - e não disse nem mais. Com toda minha cordura. Mas, de feito, eu carecia de sozinho ficar. Nem a pessoa especial do Reinaldo não me ajudava. Sozinho sou, sendo, de sozinho careço, sempre nas estreitas horas - isso procuro. O Reinaldo comigo par a par, e a tristeza do medo me eivava de a ele não dar valor. Homem como eu, tristeza perto de pessoa amiga afraca. Eu queria mesmo algum desespero.

(...)
Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é. Amigo meu era Diadorim (...)"

Grande sertão: veredas
João Guimarães Rosa

terça-feira, 17 de junho de 2014

Somente Clarice (ou nada a acrescentar)

"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa controlável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
(...)
O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro.
(...)
Todo momento de achar é um perder-se a si próprio.
(...)
No meu mudo pedido de socorro, eu estava lutando era contra uma vaga primeira alegria que eu não queria perceber em mim porque, mesmo vaga, já era horrível: era uma alegria sem redenção, não sei te explicar, mas era uma alegria sem a esperança."


A paixão segundo G.H
Clarice Lispector

domingo, 8 de junho de 2014