Cansado de só dizer boa noite.
Quando voltarei a dizer, numa manhã de estação qualquer,
bom dia?
Cansado de só dizer adeus.
Quando voltarei a dizer, findado um longo domingo de espera,
bem-vindo?
domingo, 6 de abril de 2014
sexta-feira, 28 de março de 2014
Perguntas (retóricas) de um homem que questiona seus privilégios
Já nos disseram que precisamos raspar os pêlos, cuidar do cabelo e do corpo e se preocupar com as rugas?
Já nos indicaram a roupa que devemos vestir, como nos comportar?
Já nos pediram para sentar de pernas cruzadas?
Nossos corpos já foram objeto de desejo em propagandas de carro e de cerveja?
Precisamos ser bonitos e gostosos para sermos ouvidos?
Sugeriram alguma vez que nossa raiva ou estresse ou qualquer outro sentimento tivesse ligação com alguma causa biológica - TPM?
Já nos disseram que, para sermos completos, era necessário termos filhos?
Já culparam o nosso sexo pelas barbeiragens no trânsito?
É comum sermos assediados na rua, mesmo andando sem camisa ou de cueca samba-canção?
Aliás, já assobiaram ou gritaram baixarias para nós, justificando que gostamos dos "elogios"?
Nossa bunda é olhada na rua como se fosse um pedaço de carne a ser devorada?
Já disseram que precisávamos de um vagão especial em trens para não sermos assediados (como se fôssemos nós os culpados)?
As roupas que usamos (ou a falta delas) já foi considerada convite a uma apalpada, um encostão, uma encoxada?
Quantas vezes já fomos encoxados em ônibus?
Já andamos de madrugada, sozinhos, com medo de sermos estuprados?
Alguém do nosso gênero já foi culpabilizado, aliás, por uma violência que sofreu, só porque estava com uma roupa "inadequada"?
Já nos classificaram em grupos de "pra casar" e "pra curtir"?
Somos chamados de "vadios" quando temos várias parceiras?
Somos condenados por transar no primeiro encontro?
Temos quantos casos de fotos íntimas de espécimes do nosso gênero vazadas na internet?
Temos uma religião que tivesse nos condenado à inferioridade e justificasse nossa submissão?
Só nos disseram que não devíamos chorar, porque isso é coisa de mulherzinha; que devíamos pegar quantas mulheres fossem possível (e contar depois aos comparsas), e que devíamos espancar qualquer homem que se comportasse como mulher... É. É a mulher que tentamos matar em cada homossexual que apanha.
Se ainda falta clareza ao recado, vai a dica, papo reto: o primeiro passo para romper com o machismo é reconhecer os privilégios que temos só por sermos homens. O segundo é lutar por um mundo em que não haja distinções entre Santa-Marias e Madalenas.
Já nos indicaram a roupa que devemos vestir, como nos comportar?
Já nos pediram para sentar de pernas cruzadas?
Nossos corpos já foram objeto de desejo em propagandas de carro e de cerveja?
Precisamos ser bonitos e gostosos para sermos ouvidos?
Sugeriram alguma vez que nossa raiva ou estresse ou qualquer outro sentimento tivesse ligação com alguma causa biológica - TPM?
Já nos disseram que, para sermos completos, era necessário termos filhos?
Já culparam o nosso sexo pelas barbeiragens no trânsito?
É comum sermos assediados na rua, mesmo andando sem camisa ou de cueca samba-canção?
Aliás, já assobiaram ou gritaram baixarias para nós, justificando que gostamos dos "elogios"?
Nossa bunda é olhada na rua como se fosse um pedaço de carne a ser devorada?
Já disseram que precisávamos de um vagão especial em trens para não sermos assediados (como se fôssemos nós os culpados)?
As roupas que usamos (ou a falta delas) já foi considerada convite a uma apalpada, um encostão, uma encoxada?
Quantas vezes já fomos encoxados em ônibus?
Já andamos de madrugada, sozinhos, com medo de sermos estuprados?
Alguém do nosso gênero já foi culpabilizado, aliás, por uma violência que sofreu, só porque estava com uma roupa "inadequada"?
Já nos classificaram em grupos de "pra casar" e "pra curtir"?
Somos chamados de "vadios" quando temos várias parceiras?
Somos condenados por transar no primeiro encontro?
Temos quantos casos de fotos íntimas de espécimes do nosso gênero vazadas na internet?
Temos uma religião que tivesse nos condenado à inferioridade e justificasse nossa submissão?
Só nos disseram que não devíamos chorar, porque isso é coisa de mulherzinha; que devíamos pegar quantas mulheres fossem possível (e contar depois aos comparsas), e que devíamos espancar qualquer homem que se comportasse como mulher... É. É a mulher que tentamos matar em cada homossexual que apanha.
Se ainda falta clareza ao recado, vai a dica, papo reto: o primeiro passo para romper com o machismo é reconhecer os privilégios que temos só por sermos homens. O segundo é lutar por um mundo em que não haja distinções entre Santa-Marias e Madalenas.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Enquanto vejo Medianeras pela terceira vez
(para o Rafa, o Ni e a Rose. a Luca e a Angélique. o Thi. e Ela )
É sobre mim.
É sobre quem sempre fui.
Não é sobre alguém.
Hoje vou crer no amor. Crença pura e simples. Sem teorias, academicismos ou reflexões demoradas. Sem pedantismos. Sem angustiar-me por não estar descrevendo as mazelas do mundo que me rodeia e exaspera, me incitando à luta. E não quero falar desta luta.
É sobre o amor. Crer na importância de falar dele. Desordenadamente. Abstendo-se das regras e dos cuidados estéticos que sempre me colocam medo. É o amor prosaico, que sobe do rés do chão, escala as paredes, brota no concreto cinza e desalmado da cidade. Que anima a cidade.
Crer no amor sem máscaras, sem rótulos, sem receitas para dias bons. No amor-essência que sempre está, sempre é. No amor-presente, inominável, inclassificável, sutil e singelo como só o nascer e o morrer do sol sabem ser.
Crer para salvar aquilo que quase matei em mim, o que sempre fui. Para continuar a ser e a caminhar. Crer para retomar a busca do amor que se metamorfoseia em pessoa, carne, ossos e alma.
É crença no amor que vem com a primavera, depois de curtos outonos e invernos longos.
Hoje em diante: do amor fazer armadura para os dias de luta, chuva para as tardes quentes, abrigo para as noites sem lua. E o mais importante: do amor fazer estrada que, não importando onde se cruza ou quando se bifurca, sempre leva ao mesmo fim.
(crédito da imagem: "Medianeras: Buenos Aires en la era del amor virtual". Extraído de: http://www.popscreen.com/v/6ntEL/teaser-medianeras)
domingo, 2 de março de 2014
das lições que se aprendem enquanto caímos
Há tempos que não escrevia aquelas sentimentalidades. Já não sabia quando renunciara à escrita como forma de expressão, talvez no momento impreciso em que seu coração começou a bater no ritmo diário do trânsito-trabalho-casa. Foi preciso que o fim de um grande amor se fizesse presente para que pudesse, então, encontrar-se consigo e voltar a ouvir a doce percussão que emanava de seu peito, como outrora, destoando das canções a que se acostumara.
Encontrou-se novamente com sua escrita. Mas não eram cartas de amor, ridículas como todas são. Ainda eram suturas preparadas às pressas para estancar as feridas que insistiam em não cicatrizar, enquanto o tempo não remediasse a situação de vez por todas.
Até que o momento da amorosa carta, aquelas sentimentalidades, retornou. Carregou-a das cores mais vibrantes, como a morte multicor; selecionou verbos e adjetivos um a um; teceu a melhor malha como há muito não fazia.
Então parou. Buscou nos salões escuros da memória as lembranças de outras cartas: a semelhança das cores e formas o impressionaram tanto que logo um medo alojou-se sub-reptício em seu peito. No entanto, tal medo mostrou-se apenas sinal para a mudança de tom na música.
Versado nas artes do origami, transformou a folha em suas mãos em belo pássaro. Esperou o primeiro vento matinal e soltou a criatura como quem liberta alguém que fora preso injustamente. O pequeno ser titubeou por instantes ao sabor da brisa, desajeitado e desarmonioso, até que suas asas encontraram um ritmo, abrindo-se de par em par para ganhar os primeiros raios de sol da manhã.
(crédito da imagem: http://mateusgandara.wordpress.com/)
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
notas sobre um prenúncio
(sob forte influência do irmão de poesia Ni Brisant)
Adamastor buscava a felicidade em mantras e canções de amor, enquanto o silêncio da casa fazia-lhe sombra e companhia.
***
Há dias em que até a chuva promete.
Mas não vem.
***
Meu verso anda meio bala perdida: atirado à esmo, em busca de um lugar pra se alojar.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Passe adiante
Ouvi em silêncio seu soluçar, e vi igualmente neste idioma sem palavras as suas lágrimas. Senti-lhe quando o lápis grifava-me revelando o melhor de mim, cócegas que carregarei para sempre, maneira de me completar e me escrever em si. Mas era chegado o momento inevitável da separação, meu destino. Devo partir. Sei porém, pelo sabor da lágrima a me banhar, que estarei sempre com ele, pedaço de felicidade que carrego comigo até encontrar um novo amigo.
Fechei-o com uma felicidade imensa e real que me transbordava. Precisava retribuir os momentos bons que passamos juntos, por isso, deixei-o disponível sobre o banco vazio do ônibus. Separações são sempre difíceis, eu sei, mas era o mínimo que poderia fazer: permitir que ele viajasse outras pessoas, sua maior alegria.
Por um instante a solidão causou-lhe medo. E se ninguém o encontrasse? E se fosse parar num daqueles achados e perdidos da vida, sem o calor de uma mão a folhear-lhe, de olhos a devorar-lhe cada palavra?
De fato, foi realmente parar numa sala fria junto com tantos outros objetos que perderam a identidade e viu durante muito tempo muitos deles desaparecem. Até que uma jovem de olhos assustados o pegou e escondeu-o apressadamente em sua bolsa. Mas essa é uma outra história e terá de ser contada em outra ocasião.
(crédito da imagem: http://www.comicforum.de/showthread.php?48121-Scribble-Sammelthread/page512)
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Últimas palavras
O tiro foi certeiro. Assim era melhor. Antes, porém, de evadir-se por completo deste mundo, sentiu os últimos versos escoarem pelas veias já abertas, já desligadas do corpo e do cérebro que, em tempo, tateavam nova estrada. Assim era melhor. Concentrou-se então e bebeu cada palavra. Elas, as palavras, não lhe pertenciam, ou pertenciam a ele e a todos os outros como ele: situações semelhantes cantam canções semelhantes. Por isso, no derradeiro instante, vertiam. Para lembrar aos esquecidos que todos são iguais na dor. Para trazê-las em seu bombear quando renascessem.
Antes do verso e acorde final, uma ligeira felicidade, a universal, nunca acompanhada de riso fácil e comumente confundida com uma espécie de tristeza, ecoou simples e sépia, alterando as cores do giroflex. Assim era melhor.
Suspirou. O último antes do provável renascer. Que não tarda. Os raios ruivos do sol já apontam no horizonte da manhã.
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