domingo, 2 de março de 2014

das lições que se aprendem enquanto caímos

Há tempos que não escrevia aquelas sentimentalidades. Já não sabia quando renunciara à escrita como forma de expressão, talvez no momento impreciso em que seu coração começou a bater no ritmo diário do trânsito-trabalho-casa. Foi preciso que o fim de um grande amor se fizesse presente para que pudesse, então, encontrar-se consigo e voltar a ouvir a doce percussão que emanava de seu peito, como outrora, destoando das canções a que se acostumara.

Encontrou-se novamente com sua escrita. Mas não eram cartas de amor, ridículas como todas são. Ainda eram suturas preparadas às pressas para estancar as feridas que insistiam em não cicatrizar, enquanto o tempo não remediasse a situação de vez por todas.

Até que o momento da amorosa carta, aquelas sentimentalidades, retornou. Carregou-a das cores mais vibrantes, como a morte multicor; selecionou verbos e adjetivos um a um; teceu a melhor malha como há muito não fazia.

Então parou. Buscou nos salões escuros da memória as lembranças de outras cartas: a semelhança das cores e formas o impressionaram tanto que logo um medo alojou-se sub-reptício em seu peito. No entanto, tal medo mostrou-se apenas sinal para a mudança de tom na música.

Versado nas artes do origami, transformou a folha em suas mãos em belo pássaro. Esperou o primeiro vento matinal e soltou a criatura como quem liberta alguém que fora preso injustamente. O pequeno ser titubeou por instantes ao sabor da brisa, desajeitado e desarmonioso, até que suas asas encontraram um ritmo, abrindo-se de par em par para ganhar os primeiros raios de sol da manhã.
(crédito da imagem: http://mateusgandara.wordpress.com/)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

notas sobre um prenúncio

(sob forte influência do irmão de poesia Ni Brisant)


Adamastor buscava a felicidade em mantras e canções de amor, enquanto o silêncio da casa fazia-lhe sombra e companhia.

***

Há dias em que até a chuva promete.
Mas não vem.

***

Meu verso anda meio bala perdida: atirado à esmo, em busca de um lugar pra se alojar.


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Passe adiante





Ouvi em silêncio seu soluçar, e vi igualmente neste idioma sem palavras as suas lágrimas. Senti-lhe quando o lápis grifava-me revelando o melhor de mim, cócegas que carregarei para sempre, maneira de me completar e me escrever em si. Mas era chegado o momento inevitável da separação, meu destino. Devo partir. Sei porém, pelo sabor da lágrima a me banhar, que estarei sempre com ele, pedaço de felicidade que carrego comigo até encontrar um novo amigo.

Fechei-o com uma felicidade imensa e real que me transbordava. Precisava retribuir os momentos bons que passamos juntos, por isso, deixei-o disponível sobre o banco vazio do ônibus. Separações são sempre difíceis, eu sei, mas era o mínimo que poderia fazer: permitir que ele viajasse outras pessoas, sua maior alegria.

Por um instante a solidão causou-lhe medo. E se ninguém o encontrasse? E se fosse parar num daqueles achados e perdidos da vida, sem o calor de uma mão a folhear-lhe, de olhos a devorar-lhe cada palavra? 

De fato, foi realmente parar numa sala fria junto com tantos outros objetos que perderam a identidade e viu durante muito tempo muitos deles desaparecem. Até que uma jovem de olhos assustados o pegou e escondeu-o apressadamente em sua bolsa. Mas essa é uma outra história e terá de ser contada em outra ocasião.


(crédito da imagem: http://www.comicforum.de/showthread.php?48121-Scribble-Sammelthread/page512)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Últimas palavras

O tiro foi certeiro. Assim era melhor. Antes, porém, de evadir-se por completo deste mundo, sentiu os últimos versos escoarem pelas veias já abertas, já desligadas do corpo e do cérebro que, em tempo, tateavam nova estrada. Assim era melhor. Concentrou-se então e bebeu cada palavra. Elas, as palavras, não lhe pertenciam, ou pertenciam a ele e a todos os outros como ele: situações semelhantes cantam canções semelhantes. Por isso, no derradeiro instante, vertiam. Para lembrar aos esquecidos que todos são iguais na dor. Para trazê-las em seu bombear quando renascessem.

Antes do verso e acorde final, uma ligeira felicidade, a universal, nunca acompanhada de riso fácil e comumente confundida com uma espécie de tristeza, ecoou simples e sépia, alterando as cores do giroflex. Assim era melhor.

Suspirou. O último antes do provável renascer. Que não tarda. Os raios ruivos do sol já apontam no horizonte da manhã.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

das brincadeiras inúteis da internet


"- Não. - disse alto, falando consigo mesmo. - Tenho de poupar minhas provisões. Quem sabe quanto tempo isso vai durar."

A história sem fim - Michael Ende (SP: Martins Fontes, 2010)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Advertência

Comecei um soneto
como quem procura em correntes um caminho.
Eis, porém, que o sol rugiu vermelho na aurora:

A estrada é outra, poeta.
Sinta o vento e
lance ao olvido o tempo de prisões.