domingo, 11 de agosto de 2013

Apropriação Indébita 2 ou brincando com os grandes

Quando Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, viu-se metamorfoseado em um monstruoso inseto. E eu, eu era a sua sombra, sonâmbula e informe como as sombras são.

domingo, 4 de agosto de 2013

Irreversível

Hoje, dia que encerra em si outros dias, pesa sobre mim um quê inexorável, uma frase, um espinho:



sábado, 6 de julho de 2013

Entre os dentes, a Primavera

E envolto em tempestade, decepado
entre os dentes, segura a primavera
Secos & Molhados
 
Eis que da força quase nula, do desgaste entorpecente, da angústia áspera, da menor vida, mínima, a flor, drummondiana, revela-se e promete. A primavera assoma no horizonte.
 
 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Dia de mentira

Digo que estou feliz (e na verdade é a tristeza espaçosa que m'embala). Que saio ao teatro ou a eventos importantes para minha formação - eu, que deformada estou pelas circunstâncias -  com amigos, amiga (e não saio, somente espero e recebo a visita da solidão). Digo tudo ao contrário para que te sintas bem, neste dia outrora especial. Te engano, sem saber que me conheces e sabes muito mais do que gostaria que soubesses. E finjo como o poeta português, para ti tão poeta, tão importante para mim.
Mas eis que a noite vem, o silêncio chega e um abraço, em reais braços, faz o dia findar. Passando a meia-noite não preciso mentir; a segunda é questão de horas.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

continho à la J.S.


Arrancaram-lhe o mundo. Cristina vagava no vazio, só corpo, com as estrelas a cintilar longinquamente. O vazio era escuro, como todos sabemos que é, mas um escuro gordo e multiforme. Ela, a jovem garota, ia perdendo a noção de si, imersa no inominável, o mesmo que engolia Fantasia. E, como se não bastasse, viu, por olho alheio, o mundo que perdera, estranhamente reconhecível, o olhar, claro, que o mundo, este ela reconhece sem nenhum estranhamento.
Cristina tentou esforçar-se para sair do vazio e recuperar o que seu era. Vê-se aí que não é por falta de vontade que este conto não se completa. Queria voltar ao antes, ao não-mais. O vazio, todavia, remodelava-se a cada tentativa de fuga da moça. E os olhos alheios, cruéis sem saber que eram, a lhe mostrar o mundo perdido, a lhe gerar cada vez mais vontade e cada vez mais inércia.
Foi-se entregando aos poucos, as forças esvaídas. O vazio imperava. Hoje, se o conto morreu, não foi pela ausência de conflito.

domingo, 23 de junho de 2013

terça-feira, 11 de junho de 2013

Mal-feito feito

Desceu do coletivo e só então se deu conta de onde estava indo. Quando decidira ir neste e não em outro, considerou apenas a comodidade, a facilidade de acesso, uma vez que usaria transporte público. Desceu, e seu coração deu um salto. Aquele lugar, o reino das burocracias, prova irrefutável da racionalidade humana. O peito pulou mais uma vez ao primeiro passo em direção ao local, mas ele deu pouca importância a isso. Decidiu continuar.

Algumas lembranças turvavam sua visão enquanto atravessava a rua. Sábado de manhã, a mais forte, ele brigando com o nó da gravata, nervoso com o atraso da mãe. Meses antes deste sábado, passado do passado, numa terça-feira fria, a odisseia para encontrar o lugar, as voltas intermináveis no carro, a mesma mãe falando sem cessar. Mais um salto do coração.

E o sábado novamente, a manhã luminosa, a alegria incontrolável. Sentiu que o coração passava pela garganta. O estranho era que, na lembrança, via tudo do alto, como num video-game 2D que adota por ponto de vista o olhar de deus. Via-se na fila, os parentes ao lado, ela linda, ele lindo - supunha, pois de onde observava, ele fora de sua própria recordação, não permitia que visse os rostos.

Chegou à porta do local. Na lembrança, a fila acabava-se, eis a sua vez. O coração fugiu-lhe da boca e correu desesperado pela avenida, no sentido que tinha vindo. Ele pensou em correr atrás do órgão fugitivo, mas ponderou: seria mais fácil estar ali sem o coração. E também aquele órgão já lhe era alheio, fruto de uma plantação mal sucedida.

Entrou, a fila estava ali, não mais a lembrança. Todavia sua visão continuava turva, úmida. Sentia o rasgo na garganta e doía-lhe cada vez que algum dos atendentes gritava "próximo". Chegara a sua vez, afinal.

Os documentos, as três vias, chamavam de abertura de firma. "Endereço?" A pergunta era inesperada, doeu-lhe responder. "Estado Civil?" E desabou, entendera porque os olhos permaneciam turvos. Não era preciso mais um coração para sentir o que sentia, aliás, nunca foi necessário. "Fique diante da câmera para a foto". Seriam aqueles os olhos eternizados ao lado de sua assinatura.

Pagou e saiu. Rodou muito antes de voltar. Viu carros de polícia passando rápido, uma ambulância, o giroflex pouco lhe chamou a atenção. Enfim, retornou. Deixou a mochila, tão pesada naquele momento, no chão e foi distrair-se com a internet. Sentiu o vazio no peito.

As primeiras páginas dos sites foram rápidas em explicar tal vazio: um coração invadira a casa de uma garota, fizera-a refém. A ação policial foi rápida. Apenas um tiro no órgão, o suficiente. Seu dono, porém, deu pouca importância à fatal perda. Era o cérebro quem, afinal e sempre, comandava. E tudo ainda permaneceria ali.


"Não quero que nosso amor
seja um buraco no não
mas sinal na trajetória
da vida e da canção
Marca de queda e vitória
na palma da mão
Sombra, memória e porvir do coração

Não deixe que o nosso amor
seja  um corisco no caos
mas passos da liberdade
pisando seus degraus
feitos de momentos bons
e de momentos  maus
de descobertas, de ventos, velas, naus"

Caetano Veloso, cantada por Maria Bethânia

meu presente.