O tempo suspendeu
-se. Congelou
(partículas de água no frio intenso).
O gesto ficou por terminar,
mão no rosto,
polegar sobre os olhos
recolhendo
uma
lágrima. E o soluço,
inacabado.
Os pratos sobre a mesa,
a comida sobre os pratos:
tudo imóvel, tudo
em pênsil.
À espera: a faca de pão,
a rede da varanda,
o tapete
os quadros,
o choro e a mamadeira.
Os móveis e as viagens.
O desejo.
Suspenso na atmosfera
inefável
do futuro.
domingo, 7 de abril de 2013
domingo, 17 de fevereiro de 2013
Brilho eterno de uma mente sem lembranças em umas poucas palavras
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Deus seja louvado
Na floresta amazônica, a milhares de quilômetros daqui (daqui sendo um qualquer lugar confortável de uma metrópole como SP), uma menina vende seu corpo a um motorista de caminhão: R$20,00. Em outro ponto do país, numa praia em Natal por exemplo, um jovem da classe média gaúcha gasta R$500,00 em ecstasy e outras substâncias para consumir com seus colegas, em férias na cidade. Na mesma região, em Salvador, cobra-se R$ 5,00 para se visitar a Igreja de São Francisco, enquanto a baiana pede R$3,00 ao fazer pose para uma foto. As escolas particulares mineiras arrecadam das elites locais em torno de R$1000,00 por cabeça para garantir que os filhos delas recebam boa educação e possam perpetuar as estruturas sociais. No Rio de Janeiro, um moleque do morro vende a um playboy da zona sul três trouxinhas de maconha por R$5,00 cada; o mesmo playboy também leva 3gr de cocaína por R$60,00. No Guarujá, em SP, um dono de restaurante fica injuriado por conta da diferença de R$7,00 na conta de um universitário.
Poderia-se parar por aqui, mas vamos um pouco mais fundo. A menina foi vendida pelos próprios pais a um cafetão da região; agora, sem estudar, ela abre a boca e as pernas para receber homens imundos e sem escrúpulos; um dos jovens que consumiu ecstasy na praia já havia fumado um baseado e bebido todas e acaba de ter uma parada cardíaca; a baiana torna sua imagem um produto e vende-se feliz pouco se importando com os dilemas morais por trás do ato; os jovens estudantes das escolas mineiras ocuparão as vagas das universidades públicas, deixando à imensa maioria da população - os pobres - as vagas (pagas) nas fracas instituições de ensino superior privadas; o moleque do morro pega uma quantia maior do que lhe cabe no tráfico, e acaba perdendo a vida, enquanto o playboy comemora com os seus na noite carioca; o universitário, de 22 anos apenas, é assassinado a facadas e o autor do crime foge com outros envolvidos. E a igreja de São Francisco, casa de deus para alguns, arrecada seus quinhões enquanto a miséria corre solta, pelas valas, como a urina dos foliões.
Enquanto isso, o escritor intriga-se com uma questão: por que os ateus e agnósticos, ou melhor, por que só os ateus e agnósticos concordam em tirar a frase das cédulas de real?
segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
votos de fim de ano
Tá, é final de ano e todo mundo espera uma palavra de acalanto, um voto de prosperidade, uma esperançazinha para o ano que vai começar.
Infelizmente não posso desejar boas festas, feliz ano novo, sorte-amor-felicidade a todo mundo. Não é isso que o Mundo precisa. Desejarei, em vez, que certos imbecis sejam cada vez mais infelizes em seus comentários e ações preconceituosas, de natureza homofóbica, machista ou racista. E desejarei também que mais e mais pessoas fiquem infelizes quando ouvirem esses comentários. E que, quando a infelicidade for geral, possamos enfim extirpá-la como se corta um membro gangrenado.
Desejarei força e inteligência para as lutas, as diárias e as épicas. Para as lutas que se lutam em conjunto, não para aquelas em que se faz para benefícios individuais. Para estas desejo sorte. Que a sorte fique para os bobos que acham que podem mudar a própria vida com as doses de alienação as quais estão viciados.
Desejarei o fim do amor. Não de qualquer amor, mas deste egoísta, que pensa mais em si e nos seus. Que esse amor possa ser substituído por outro, limpo de vontades divinas que selecionam alguns e condenam tantos. Um amor que lute e enfrente todo e qualquer ato desumanizador. Que combata os discursos e ações desumanizadoras, de origem religiosa, política ou (o pior mal) político-religiosa.
Desejarei o fim da esperança, esta que nos faz ficar sentados à espera de milagres. Que o fim da esperança possa gerar o acordar do espírito, do corpo, do humano. E que, não havendo mais a crença na existência de um mundo melhor para além, as pessoas comecem a construí-lo no aqui e agora.
Desejarei coragem para pegar em armas sempre que necessário. Não as armas de fogo (mas não as tirem do horizonte, porque podem ser necessárias), mas as palavras. As canções. As pedras. E que munidos de um arsenal potente possamos destruir tudo aquilo que barra a construção de um novo mundo.
Que não nos enganemos, enfim. Há muito que fazer antes da completa prosperidade e bonança. Muito sangue, literal e figurado, a correr. E é preciso estar consciente, de olhos abertos, para vencer.
Estes votos são os meus.
sábado, 17 de novembro de 2012
Sobre identidade ou Quando Calle 13 passou por aqui
(para minha amiga Vany, latino-americana apaixonada)
Amigo leitor: ouça bem a música que posto. Pode não parecer, mas ela fala muito de você, também. Ela se chama "Latinoamérica" e é de uma banda porto-riquenha chamada Calle 13. Eu, quando a ouvi pela primeira vez, senti uma vergonha estranha. Música de uma banda de um país que nem país é (Porto Rico é território estadunidense), cantada em um espanhol que consigo entender, mas sobretudo com um trecho em bom português na voz de Maria Rita. E de onde vem a vergonha?
Desconsiderando a música do Belchior, é muito difícil ver um brasileiro se reconhecer como pertencente a uma coisa chamada América Latina. Ou melhor: reconhecer-se como latino-americano. Somos brasileiros, fomos "descobertos" por portugueses e falamos a língua que Camões usou. A América Latina é algo como uma simples vizinha, com quem temos, país do futuro que somos, os nossos prepotentes interesses. Parece que o pensamento que permeia o imaginário brasileiro não nos vê como um país cuja história é semelhante ao dos países vizinhos nossos. Antes, somos ávidos em afirmar nossas diferenças.
Mas não é bem assim. E o pior, que é de onde vem a vergonha, nossos "vizinhos" sabem disso. Sabem, melhor do que nós, que a nossa história é a mesma, que os algozes foram os mesmos, revestidos de diferentes nacionalidades, mas com os mesmos objetivos e praticando as mesmas ações. Sinto vergonha em ter passado muito tempo sem me pensar como "apenas um rapaz, latino-americano". Sinto vergonha em saber que os meus hermanos me reconhecem como tal, mas que nunca me dei conta disso.
Os livros de história não falam. A história oficial não fala. Mas a terra sabe. Se você, leitor, ouvi-la, vai achar no mínimo revoltante o comentário do sr. Alckmin neste vídeo.
Latinoamérica nos ensina algo muito além do que as palavras podem dizer. Mas é preciso deixar o coração entrar no mesmo compasso desta canção.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Texto-Esboço para os Oito Anos.
(para Ela, sempre)
Era um filme que veríamos. Um filme que foi se revelando nas longas conversas de telefone, e trocas de mensagens em que se abreviavam as palavras para se conseguir dizer mais. Era um filme para selar o fim do que sequer havia começado. Era assim mesmo: antes do começo, o fim.
Sabe-se lá que mágicas o cinema faz! Uma noturna luz disfarçava a tarde lá fora. Domingo. E nós, ali, a ver o filme prometido. Desconhecíamos os caminhos do amor, que conduziam os braços aos abraços apaixonados, os lábios ao ávido beijo. Eis que o filme aproximava-nos: sentar lado a lado, oferecer um colo, aceitar um afago. A película, na verdade, era a água que regava o campo semeado com palavras. Sempre as palavras. Poderiam brotar a qualquer momento, tornarem-se reais e terríveis, converterem-se em atos, ações e, portanto, não terem mais volta.
A tarde entregava-se aos jogos de crianças, às conversas de portão e aos goles de bar. Nós, à semi-obscuridade, à vontade de começar o que já havia acabado. E foi assim que as palavras, muitas delas abreviadas, outras prolongadas em horas que adentravam madrugadas, brotaram. Um gesto, um braço, um abraço, um beijo, uma explosão. O fim.
Daí então, o início.
Assinar:
Postagens (Atom)